quarta-feira, 30 de setembro de 2009


“Depois de alguns instantes, o acúmulo de tristeza acabou por se transformar em farsa. Choramos durante meses, anos, e um dia, a repetição incessante dessas lágrimas faz a natureza do sofrimento se transformar. Damo-nos conta de que a causa da nossa tristeza já não é a dor, mas sim o hábito. Então, apesar dos esforços para produzir lágrimas em nossos olhos e para nos sentirmos infelizes, não conseguimos mais. Porque já não faz sentido. Como uma associação de idéias, a mente de Elias buscou na memória uma recordação da infância. A primeira cintada dói, mas, a partir da milésima, ficamos apenas à espera de que aquilo passe logo, como uma chuva. O mais doloroso não são os golpes, mesmo que se morra por causa deles, mas a ausência de amor.”

A gente se acostuma com o fim do mundo. Rio de Janeiro, Rocco, 2007. Pág. 98

segunda-feira, 14 de setembro de 2009


Para recordar:

O amor é uma espécie de preconceito.
A gente ama o que precisa,
ama o que faz sentir bem,
ama o que é conveniente.
Como pode dizer que ama uma pessoa
quando há dez mil outras no mundo que
você amaria mais se conhecesse?
Mas a gente nunca conhece.


Charles Bukowsk

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Caminhada pela liberdade religiosa!!!


No mês de setembro teremos mais um compromisso em defesa da nossa fé. Vamos todos de branco, mostrar força e união na luta pela liberdade religiosa em nosso País. Por Olodumare, por nossos Voduns, Inkices e Orixás, por todas as energias que nos governam e amparam, pela manifestação de todas as forças espirituais luminosas, amorosas e caridosas que atuam em nossos rituais, possamos participar, com determinação e organização, dessa 2ª caminhada de desagravo contra todas as formas de preconceito, discriminação, desrespeito e intolerância que atingem as religiões afro-brasileiras e seus adeptos. Essa manifestação do Povo do Santo está agendada para o dia 20 de setembro de 2009, domingo
,
na Praia de Copacabana, Posto Seis, Rio de Janeiro.

Entendendo Djedje


Djedje
(jeje) é uma palavra de origem yoruba que significa estrangeiro, forasteiro e estranho; que recebeu uma conotação pejorativa como “inimigo”, por parte dos povos conquistados pelos reis de Dahomey e seu exército. Quando os conquistadores eram
avistados pelos nativos de uma aldeia, muitos gritavam dando o alarme “Pou okan, djedje hum wa!” (olhem, os jejes estão chegando!).
Quando os primeiros daomeanos chegaram ao Brasil como escravos, aqueles que já estavam aqui reconheceram o inimigo e gritaram “Pou okan, djedje hum wa!”; e assim ficou conhecido o culto dos Voduns no Brasil “nação Jeje”.

http://jesusnaotemdrogas.blogspot.com/

O intérprete de Deus

Não acredito num Deus vingativo e impiedoso, não vejo Deus como um patrão que você tem que agradar para ser promovido. Eu não amo porque Deus me mandou amar, nem odeio porque Deus me permitiu odiar, isso tudo é relação humana e não divina. Ou assim amar como odiar, é um cromossomo de Deus?
Uma vez me perguntaram se eu rezo antes de dormir, e eu disse que não, apenas peço para Deus me dar uma boa noite de sono e só. Me senti um cretino, não penso em nada a não ser cair na cama e dormir.
Os crentes batem na porta às 8 da manhã de um domingo, se sentindo os novos servos, repetindo os apóstolos, não porque Deus mandou, mas sim a igreja. Segundo Talita, quebre a igreja e terá um Deus verdadeiro.
Os crentes são como gados, falam com voz de veludo e são simpaticíssimos, e quando você lhe dirige a atenção te tratam como crianças semi – alfabetizadas, lendo para você com o livro sagrado na mão, falam do céu como se fosse um recanto feliz e descreve o inferno com a exatidão de quem já passou alguns dias por lá. O crente me mandou escolher um tema, e eu não fiz por menos e escolhi o melhor: “Por que Deus aceita o sofrimento?”.
Ele leu as perguntas e mais parágrafos, as sinceras indagações de Habacuc e tudo mais, mas as respostas que são boas ficaram para uma próxima vez, se ele pudesse vim, é claro, no caso; se eu permitisse que ele viesse. Isso pra mim é puro jogo de marketing, as novelas são assim quando acaba na melhor hora, e você tem que esperar o próximo capítulo. Tipicamente evangélico...
Passeei por uma montanha de doutrinas e nenhuma conseguiu me tornar um habitué. Já freqüentei a macumba, estava por um triz por lá já que eu tenho um pé no terreiro, mas me pélo de medo de caboclo e receio as indiscretas verdades dos erês, e também é uma rigorosa disciplina. No entanto o Candomblé é mais bonito do que a doutrina Pentecostal e aquelas danças esquisitas que o Genne Kelly tanto se inspirou. Uma póstuma médium uma vez me disse: “O Candomblé é exato, quem está fora não entra e quem está dentro não sai.” E um louco uma vez me falou: “A língua dos anjos e a língua dos bêbedos só entendem quem é abstêmio ou divino.”.
Quando bem no meio do ato sexual com minha garota eu tive um ataque rápido de epilepsia, ela ficou apavorada e não queria mais me tocar, a cretina, como se isso fosse contagioso, fui pra sala e passei toda a noite com os olhos em chamas buscando respostas em Alan Kardec, porque era o único suplemento literário da casa da imbecil, foi desse modo que eu conheci o Espiritismo e seu bando.
Na igreja Batista, passei por lá porque me divertia com o jeito demagogo do pastor se comunicar com seus fiéis, ele sabia que eu sabia que ele era um charlatão de praça pública, e que eu só era fiel ao meu barbeiro. Ele estaria lá ainda me divertindo e fazendo os outros de trouxa se não tivesse sido preso por evasão fiscal. Deu mole. O chá de santo Daime é muita informação pra minha cabeça, da ultima vez eu era soterrado por uma maré de pontas cigarros, e fui um comerciante de escravos. Fui expulso porque não respeitei as regras da seita. Usando o chá como um barato, entrei em total baratino. Agora eu quero mesmo é um terço budista.
Deveria ter sido sincero como Habacuc e dizer para o crente: Olha, esquece. Eu não tenho uma cabeça de carneiro, eu sou muito difícil de persuadir, não daria tempo de você me convencer em apenas uma manhã. As coisas mundanas sinceramente me atraem, sabe? Gosto de beber, gosto de foder, sou preguiçoso, sou glutão... Tudo isso é sentimento humano, do corpo e não da alma. A minha espiritualidade, digamos, é madrasta.
E se ele me desse à oportunidade de contraponto, dissertaria sobre a caverna de Platão, suas sombras e laborais.
No dia que o jovem crente voltou com a cabeça munida de bons raciocínios, para me responder a super - citada pergunta de “Por que Deus aceita o sofrimento?” e de lambuja ler alguns salmos incomuns e agitar a teologia, por isso ele voltou com reforço_ uma mocinha da qual por uma banda da janela, só pude ver as batatas brancas da perna torta, e a sua sombrinha estampada inimiga do sol. Não pude atendê-los porque estava conversando com meu pai.
Naquela manhã meu pai, com ares de oráculo, tentava que eu aceitasse a idéia de me enterrar no paraíso, e volta-se de lá, tal como cera quente, uma pessoa totalmente moldada. Isso tudo porque tive a desgraça de acentuar algo que se afasta do seu modo tradicional de viver, porque sou completamente sem noção e ajo por impulso, porque tenho mais sorte do que juízo, e faço coisas que _ querendo ou não, é infeliz aos olhos de qualquer um, porque nenhum vulgo pode compreender. Então todo mundo acha que eu sou um maldito cracker e minha mãe freqüenta a Nara Nom todos os sábados às escondidas, e eu sou o ultimo a saber? Onde eu estou, afinal?
Mudar ou engabelar? Conseguir um emprego é provavelmente a solução mais exata, lançar um bom bocado na boca dos cães, para que parem de ladrar e me deixe dormir um pouquinho só.
“Que ótimo!” Eu pensei quando o intérprete de Deus bateu no portão. “Chegou mais um membro para solucionar a minha vida, como se ela já não fosse por demais codificada!” minha mãe os despachou dando explicações de conversas sérias de pai e filho no momento, dando a entender que eu era um caso perdido... O que obviamente deixou o jovem crente com mais sede de mim.
Esse modo tipicamente cristão, de falar sobre coisas supra - humanas que aprenderam com cristãos pioneiros, não me convence, me sinto como um novo cordeiro, uma nova cobaia, o discípulo do discípulo do discípulo.
Não se engane comigo, não estou chafurdado num lodaçal de problemas, eu só sou uma pessoa que oscila entre bons dias e dias ruins, e que acha que todo mundo tem o estado de espírito que merece.
Acredito que Deus é amor, eu acredito no Amor e naqueles que amam. A felicidade é a única perfeição da vida, e como uma, ou duas vezes disse o pintor Da Vinci: “Não se preocupe em procurar a perfeição, ela não existe.”

Texto do meu amigo de Oxossi DOM
BLOG
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sábado, 5 de setembro de 2009

EU AMO BUKOWSK


derrota

ouvindo Bruckner no rádio.
me perguntando porque não estava meio louco
depois do meu último rompimento com minha
última namorada.

me perguntando porque não estou guiando pelas ruas
bêbado
porque não estou no banheiro
na escuridão
na escuridão atroz
ponderando
lacerado por pensamentos incompletos.

suponho
por fim isto
como um homem comum:
conheci muitas mulheres
e em vez de pensar
quem está trepando com ela agora?
eu penso
nesse instante ela está aborrecendo terrivelmente
outro desgraçado.

ouvir Buckner no rádio
parece algo tão pacífico.

muitas mulheres já passaram por aqui.
estou sozinho afinal
sem estar sozinho.

pego um pincel Grumbacher
e limpo minhas unhas com a ponta afiada.

percebo uma tomada na parede.

veja, eu venci.

Charles Bukowski

FLORES



Minha herança...
Achei você no meu jardim entristecido
Coração partido
Bichinho arredio
Peguei você pra mim
Como a um bandido
Cheio de vícios
E fiz assim, fiz assim:

Reguei com tanta paciência
Podei as dores, as mágoas, doenças
Que nem as folhas secas vão embora
Eu trabalhei

Fiz tudo, todo o meu destino
Eu dividi, ensinei de pouquinho
Gostar de si, ter esperança e persistência sempre

A minha herança pra você é uma flor
Um sino,uma canção,um sonho
Nenhuma arma ou pedra eu deixarei

A minha herança pra você é o amor
Capaz de fazê-lo tranqüilo, pleno
Reconhecendo no mundo o que há em si

E hoje nos lembramos sem nenhuma tristeza
Dos foras que a vida nos deu
Ela com certeza
Estava juntando você e eu

Achei você no meu jardim

Vanessa da Mata


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Do site releituras para sala de aula.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)


Marina Colasanti
nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.


O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

Fernando Pessoa (Ricardo Reis)


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Fernando Pessoa
(Odes de Ricardo Reis)