quarta-feira, 29 de dezembro de 2010


“Eu te amei muito. Nunca disse, como você também não disse, mas acho que você soube. Pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar. Pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do que é bonito. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas — se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso. Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha — e tenho — pra você. Acho que é bom a gente saber que existe desse jeito em alguém, como você existe em mim.”

Caio Fernando Abreu


Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo
quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando
melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro
antes, durante e depois de te encontrar.
Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de
lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar.
Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é
covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque
sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência,
pareço desinteressado, mas sumi para estar para sempre do seu
lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua
desajeitada e irrefletida permanência.

Martha Medeiros

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010


Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

(Pablo Neruda)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Se chovesse você

Se chovesse você
Adonay Pereira/Eliana Printes/Eliakin Rufino

Se você fosse lua
Dormiria contigo na praia
Entraria contigo no mar
Choraria o teu minguante
Seguiria o teu crescente
Habitaria teu luar

Se você fosse sol
Eu seria girassol
Tua luz seria meu farol
Amaria teu calor
O teu fogo abrasador
Queimaria por amor

Se você fosse vento
Queria você todo momento
Pra enrolar meu cabelo
Levantar a minha blusa
Arrancar-me um suspiro
Ser o ar que eu respiro

Se você fosse chuva
Eu me deixava molhar de prazer
Dançava na rua pra ter
Minha roupa bem molhada
Minha alma encharcada
Se chovesse você

domingo, 10 de outubro de 2010

DESPEDIDA

Existem duas dores de amor:
A primeira é quando a relação termina e a gente,
seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro,
com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva,
já que ainda estamos tão embrulhados na dor
que não conseguimos ver luz no fim do túnel.

A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.

A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços,
a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida:
a dor de abandonar o amor que sentíamos.
A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre,
sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também…

Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir,
lembrança de uma época bonita que foi vivida…
Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual
a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis,
mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo,
que de certa maneira entranhou-se na gente,
e que só com muito esforço é possível alforriar.

É uma dor mais amena, quase imperceptível.
Talvez, por isso, costuma durar mais do que a ‘dor-de-cotovelo’
propriamente dita. É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos
deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por
ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos,
que nos colocava dentro das estatísticas: “Eu amo, logo existo”.

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou,
externamente, sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente…
E só então a gente poderá amar, de novo.

Martha Medeiros

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O coração é uma casa de putas: Tem muitos quartos.

O amor são negócios. São ações, investimentos, onipresença desejadamas impossível. O amor é gripe. Conhecemo-lo por inteiro, sabemos de seus caminhos, mas sempre adoecemos. O amor é ainda pior que a gripe, porque nele nós insistimos. Seria talvez mais sensato ter gripe que amar. O amor é curto e bruto. Soca tudo para dentro de seu tamanho, e lá dentro é tão pequeno. Como não sair machucado de limites tão estreitos? O amor tem cheiro, ninguém ama o que fede. O amor é cheio de frescuras. Quer florese quer ser entendido. Há gente que acha que amorsão dois cubos lado a lado. Há quem ache que são engrenagens justapostas. Há quem não saiba o que fazerdo próprio amor,e há os que não o conheceme nem por isso morrem. Somos todos tão esquisitos. Amamos e morremos de medo, ou então amamos e temos mil coragens,ou então estamos sempre a um pezinho só do amor e olhamos para os lados, perguntando: "Ninguém vai fazer nada? Ninguém vai me dar uma mão com isto aqui?" O amor vive dizendo: "se vira". O amor nem sempre pára na rua pra nos cumprimentar. Às vezes chegamos esbaforidos num lugar, e ele acabou de sair. O lugar onde se sentou ainda está quente, a marca de sua bunda, em forma de coração, ainda é visível, mas estamos atrasados. Noutras vezes, chegamos cedo demais, e nos enchemos e vamos embora antes que ele apareça - se é que aparece. Às vezes nos apaixonamos pela idéia que fazemos do outro. E o amor reconhece sua firma, e diz que é legítimo e autenticado - penas talvez seja breve. Às vezes o amor é tão curto que dá a aparência de engano.Culpamos o amor por tudo. Às vezes o amor vem vestido de fome, de falta; às vezes nem dá nome na porta, entra quieto, tira os sapatos, olha pros lados,e voilá! estamos ferrados. E às vezes o amor vem todo pintado, fazendo escândalo e bebendo muito, subindonas mesas, dançando, piscando para tudoe para todos, soltando baforadas safadas, borrando o batom. Às vezes vem como chuva, penetra nossa pinturae nos molha os olhos ou enche nossa barriga de formigas. O amor nos deixa ansiosos, dependentes do relógio, donos dos meses sem fimentre desgostos mais ou menos óbvios. Nunca acordei amando, mas já fui dormir assim muitas vezes. Nunca perdi a fome, mas já cansei de perder o sono. Nunca recuperei nada. Já olhei muitas manhãs com cara de última, já desci muitas ruas que tinham ar de fim da linha, já me senti vezes sem conta irmão das poças. Já bebi muitas auroras em companhias mortas. Já fui expert em cinzas. E o amor vive comigo. Tenho dois corações: um é meu, com licença, que alguém tem que ser constante a meu lado; o outro tem donos variados. O amor o aluga a gente esquisita,a uns fodidos, mal-amados; mas também o loca a gente maldita, que é bela, bonita e boa, que me faz rir e achar bom não ser mais dono do que penso - essa gente que me mata em cada ponto final que resolve inventar.
Gabriel Garcia Márquez

Os visitantes


(Lygia Fagundes Telles)

Quando acordei, vi um diabinho montando no meu peito e outro no teto, dependurado no lustre. Coçava o ouvido com o rabo. Olhei para um, olhei para outro e não senti nem medo nem curiosidade, não senti nada, absolutamente nada. Ausência de emoção de qualquer espécie, o oco. Inerte, branca, fiquei olhando e meu olhar era exaurido como um sol apagado, só memória do outro sol mas sem nostalgia. Sem sofrimento. O diabinho mais próximo viu minha indiferença e ficou de pé no meu peito, se desmanchando em caretas para me impressionar. Não me impressionei: tinha chegado o fim do amor e desse incêndio não restara pedra sobre pedra, osso sobre osso, Roma de trás para diante com letra por letra queimada e reduzida a carvão. Ora, que me importa, eu disse. Vocês aí, que me importa. Rolei a cabeça no travesseiro e minha cabeça era opaca sem o gorro de pedras fulgurantes que durou enquanto durou a aventura. Fiquei olhando a parede vazia, os olhos também vazios. Quando os abri de novo, os diabinhos já tinham ido embora, podia imaginá-los murchos, de rabo entre as pernas, saindo em fila do quarto. Perdi meus demônios, pensei. Infernizada, eu poderia voltar à luta, reagir na cólera e quem sabe então a esperança, ei! onde é que vocês estão? chamei-os. Voltem, pelo amor de Deus, não me abandonem, voltem! A janela se abriu e o vento espalhou o punhado de cinza fria que restara no meu peito. O cheiro de enxofre foi desaparecendo.


AMOR BASTANTE

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
um bom poema leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
Paulo Leminski

Todas as Vidas (Cora Coralina)

Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo. Benze quebranto. Bota feitiço... Ogum. Orixá. Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo... Vive dentro de mima lavadeira do Rio Vermelho. Seu cheiro gostoso d'água e sabão. Rodilha de pano. Trouxa de roupa, pedra de anil. Sua coroa verde de São-caetano. Vive dentro de mim a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem feito. Panela de barro. Taipa de lenha. Cozinha antiga toda pretinha. Bem cacheada de picumã. Pedra pontuda. Cumbuco de coco. Pisando alho-sal. Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa,de chinelinha, e filharada. Vive dentro de mima mulher roceira. - Enxerto de terra, Trabalhadeira. Madrugadeira. Analfabeta. De pé no chão. Bem parideira. Bem criadeira. Seus doze filhos, Seus vinte netos. Vive dentro de mim a mulher da vida. Minha irmãzinha... tão desprezada, tão murmurada...Fingindo ser alegre seu triste fado. Todas as vidas dentro de mim: Na minha vida - a vida mera das obscuras!
(Cora Coralina)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Vinte e poucas frases de Meredith Grey

Sobre relacionamentos (amigos, família, amores):

Intimidade é uma palavra de cinco sílabas para ‘aqui – está – o – meu – coração – por – favor – esmague-o – como – carne – moída – e – se – delicie’. É uma coisa ao mesmo tempo desejada e temida. Difícil de conviver com e impossível de se viver sem”

“A Julieta era uma idiota. Porque ela se apaixona por aquele cara que ela sabe que não pode ter… Todo mundo acha isso tão romântico: Romeu e Julieta, amor verdadeiro… que triste. Se Julieta foi burra o bastante para se apaixonar pelo inimigo, beber uma garrafa de veneno e ir repousar num mausoléu, então ela teve o que merecia”

“E até hoje, eu acredito que, na maior parte do tempo, o amor é uma questão de escolhas. É uma questão de tirar os venenos e as adagas da frente e criar o seu próprio final feliz

“Há um velho provérbio que diz que você não pode escolher sua família. Você aceita o que o destino lhe dá. E gostando deles ou não, amando-os ou não, entendendo-os ou não, você se adapta a eles. Aí tem também aquele que diz que a família onde você nasce é simplesmente o ponto de partida. Eles te alimentam, te vestem e tomam conta de você até que esteja pronto para cair no mundo e encontrar sua própria família, sua tribo”

Sobre o difícil ofício de crescer:

Comunicação. É a primeira coisa que realmente aprendemos na nossa vida. O engraçado é que, depois que crescemos, aprendemos as palavras e começamos a falar pra valer, fica mais difícil saber o que dizer”

“A gente cresce, fica alto, mais velho… Mas, na maioria dos casos, a gente ainda é um bando de crianças correndo no parquinho desesperados para entrar num grupo”

“O desejo pode ferrar com a sua vida. E por mais duro que seja querer muito uma coisa, as pessoas que mais sofrem são aquelas que sequer sabem o que querem”

Mudanças. Nós não gostamos delas. Nós a tememos. No entanto, não conseguimos evitá-las. Ou nos adaptamos às mudanças, ou somos deixados para trás. Crescer é doloroso. Qualquer um que te disser que não, está mentindo. Mas aqui vai a verdade: às vezes, quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas. E às vezes,oh, às vezes mudar é bom. Às vezes mudar é tudo”

Sobre verdades, mentiras, erros e suas consequências:

“Aqui vai a verdade sobre a verdade: ela machuca. Então, a gente mente”

“Talvez a gente goste da dor. Porque sem ela, talvez, a gente não se sentisse real”

“Estamos todos danificados, ao que parece. Alguns de nós, mais que outros. Carregamos o dano desde a infância e então, já adultos, causamos tanto quanto recebemos. Definitivamente, tudo que fazemos é causar danos

“Na vida, apenas uma coisa é certa, além da morte e dos impostos. Não importa o quanto você tente, não importa se são boas suas intenções, você cometeráerros. Você irá machucar pessoas. E se machucar”

“Esquecer e perdoar. É isso que dizem por aí. É um bom conselho, mas não muito prático. Quando alguém nos machuca, queremos machucá-los de volta. Quando alguém erra conosco, queremos estar certos. Sem perdão, antigos placares nunca empatam, velhas feridas nunca fecham. E o máximo que podemos esperar é que um dia tenhamos a sorte de esquecer

“A vida já é tão difícil, por que a gente fica arranjando mais problemas pra gente? Que necessidade é essa de apertar o botão de auto-destruição?”

“Então o que torna a Ira diferente dos outros seis pecados capitais? É bem simples na verdade: se entregue a um pecado como inveja ou orgulho e você só machuca a si mesmo. Experimente luxúria ou ganância e você machuca a si mesmo e mais uma ou duas pessoas. Mas a ira… Ira é a pior. A mãe de todos os pecados. A ira pode levar não somente você até o limite, mas também um número terrível de pessoas junto consigo”

“O que é pior: novas feridas que são horrivelmente dolorosas ou velhas feridas que deviam ter sarado anos atrás, mas nunca o fizeram?”

“Não importa o quanto algo nos machuca, às vezes se livrar dele dói mais ainda.”

Sobre outras coisas da vida:

“Você pode desperdiçar sua vida construindo barreiras e fronteiras ou então você pode viver ultrapassando-as. Mas há algumas que são perigosas demais para serem cruzadas. E aí vai o que eu sei: se você estiver disposto a se arriscar, a vista do outro lado é espetacular”

“Eu não tenho idéia porque a gente fica adiando as coisas, mas se eu tivesse que chutar, diria que tem muito a ver com o medo. Medo do fracasso. Medo da dor. Medo da rejeição. Seja lá do que a gente tenha medo, uma coisa é sempre verdade: com o tempo, a dor de não ter tomado uma atitude fica pior do que o medo de agir”

“Quem determina quando o velho acaba e o novo começa? Não é o calendário, não é um aniversário, nem um ano novo – é um evento.”

“A superstição fica naquele ponto entre o que conseguimos e o que não conseguimos controlar. Nós nos apoiamos em superstições porque somos espertos o suficiente para saber que não temos todas as respostas. E que a vida funciona de maneiras misteriosas”

“Não se pergunte por que as pessoas enlouquecem. Se pergunte por que não enlouquecem. Diante do que podemos perder num dia, num instante. Se pergunte que diabos é isso que nos faz manter a razão“.

“Algumas vezes o esperado simplesmente perde importância comparado aoinesperado


do blog: http://mariasamara.wordpress.com/2008/06/19/vinte-e-poucas-frases-de-meredith-grey/

Angela Ro Ro ( Gota D' Água )

Gota d'água

Chico Buarque

Composição: Chico Buarque (1975)

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água...(2x)

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água....


MUNDO GRANDE Carlos Drummond de Andrade


MUNDO GRANDE
Carlos Drummond de Andrade

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.

Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
Por isso me grito,
Por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
Preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.

Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes com é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso

Num só peito de homem...sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
Tão calma. Não anuncia nada.

Entretanto escorre nas mãos,
Tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
Como é triste ignorar certas coisas.
( Na solidão de indivíduo
Desaprendi a linguagem
Com que os homens se comunicam. )


Outrora escutei os anjos,
As sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Outrora viajei
Países imaginários, fáceis de habitar,
Ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
Trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
Entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.

- Ó vida futura! Nós te criaremos

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Gonzos e parafusos







Trecho de Gonzos e parafusos, de Rubem Fonseca


I

Este não é o início da história. Eu poderia dizer, como outros já disseram: a tragédia começou no dia em que nasci. Mas não é tão simples assim. Às vezes a Baronesa Elisabeth Bachofen-Echt vem me visitar. Porém, o fato de ela não existir não me torna necessariamente uma louca. Porque, nesse caso, toda pessoa com imaginação seria louca. Eu estava pronta para ir a uma festa com a Amanda. Havia até comprado um livro com a poesia completa de T. S. Eliot para o aniversariante. Sempre faço isso, presenteio as pessoas com as coisas que eu gostaria de ganhar. "O tempo presente e o tempo passado/ Estão ambos talvez presentes no tempo futuro/ E o tempo futuro contido no tempo passado." Esses versos do T. S. Eliot não me saíam da cabeça. Desembrulhei o livro e, ao abri-lo, deparei com o poema Burnt Norton, dos Quatro Quartetos, cuja primeira frase é essa. Decidi ficar em casa e com o livro para mim. A edição que eu tinha estava em mau estado de tanto ter sido compulsada. Telefonei para a Amanda e disse que não iria mais à festa com ela. Tirei a roupa, que vestira especialmente para a festa, e as pulseiras. Removi a maquiagem observando o meu rosto no espelho do banheiro como se aguardasse uma resposta. Por um momento deixei de acreditar que existia, mas ver-me refletida me deu a certeza de que eu continuava viva. Contemplar a minha imagem me tranquilizou, ainda que aquele corpo, dentro do qual eu me abrigava, parecesse estranho. Reparei então nas cicatrizes no meu braço esquerdo e nos meus pulsos. Aceitei-as ao invés de repeli-las. Elas estabeleciam uma junção, uma união profunda comigo mesma. De cada cem mil pessoas, 750 se ferem propositalmente de diferentes maneiras. Porém, elas não são loucas nem suicidas, conquanto algumas acabem se matando. Volta e meia alguém me pergunta que cicatrizes são essas na parte superior do meu braço e nos meus pulsos. Por isso, raramente saio sem pulseiras e não gosto de usar camisa sem manga. Como as pessoas são perversas, fazem propositalmente perguntas constrangedoras fingindo uma ingênua curiosidade. E se você rechaça a pergunta te chamam de sem educação. Se diz a verdade – tentei me suicidar, desejei me ferir -, elas suspiram com uma falsa expressão de dó e se desculpam, sentindo-se superiores. Federico foi o único que riu e me deu dentadas bem de leve no pescoço, dizendo, "Bela, Bela, você é impossível". Federico Sanchéz, meu colega de profissão, divide comigo o apartamento onde temos nossos consultórios. É cheio de vida, muito expansivo e bem articulado, apesar do sotaque portenho. Ele nasceu em Buenos Aires. Quando está feliz contagia a todos com a sua gargalhada eufórica. Beija, abraça e até morde as pessoas de excitação. Contudo, a sua alegria é ocasionalmente substituída pela depressão e pela ansiedade, o que faz a epiderme do seu cotovelo ficar ferida e descascar. Ele sofre de psoríase. Além de amigos, éramos amantes. No entanto, eu não era apaixonada por Federico e, por mais que o estimasse, não o amava. É irritante descobrir que até eu abuso do verbo amar, esse verbo que pretende dizer tudo e não diz nada. Já expliquei isso diversas vezes para uma das minhas analisandas, que apelidei de Madame Bovary, porque se chamava Emma como a personagem de Flaubert e era magra, pálida, de olheiras azuladas como, aliás, todas as heroínas tísicas dos romances franceses do século 19. Minha paciente, como a Bovary, certa vez se apaixonou, mas, assustada com a inesperada paixão extraconjugal, não teve coragem de trair o marido e se arrependeu. "Eu devia ter me entregado a ele", repetia sem parar. Eu sabia que, assim como aconteceu com Madame Bovary, não demoraria muito para que minha paciente fosse para a cama com o primeiro estranho que aparecesse. Eu, em silêncio, talvez a incentivasse, a traição quando secreta pode ser benéfica ao casamento. O traidor passa a sentir culpa e a tratar melhor o seu cônjuge. A minha Emma Bovary também tinha ideias românticas sobre a vida, e em mais de uma ocasião me perguntou, "Todo mundo é capaz de amar?". Expliquei-lhe que todos somos capazes de transferir. "Não sei o que significa o amor", insistiu a minha Madame Bovary. "Ninguém sabe", respondi. No meu aniversário de seis anos o meu avô paterno, um senhor esguio de poucas palavras, sussurrou no meu ouvido, "Vá até a varanda e fique escondida me esperando". "Pode sair de trás das plantas", disse ele. Agachada, olhei para o vovô, que me pareceu ainda maior. Ele ajoelhou ao meu lado. Ficamos quase da mesma altura. Então, sem dizer uma só palavra, ele me entregou uma caixa de plástico cilíndrica e transparente, amarrada com laços de fita. Vi através do plástico uma boneca cabeçuda de cabelos loiros cacheados. O corpo da boneca era minúsculo e ela trajava uma roupa prateada. "Abre", falou. Fiz o que ele mandou. No pescoço da boneca havia um coração rosa com um dizer em letras vermelhas. Vovô leu em voz alta o que estava escrito no pingente: "Eu te amo". "Não mostre o seu presente para ninguém. Essa boneca simboliza o amor." "Mas, vovô, ela é feia." "Você vai acabar achando ela bonita."


Gonzos e Parafusos Autora: Paula Parisot

Editora Leya


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nação (Joao Bosco)


Dorival Caymmi falou pra Oxum :
Com Silas tô em boa companhia
O céu abraça a terra
Deságua o rio na Bahia

Jêje,
Minha sede é dos rios
A minha cor é o arco-íris
Minha fome é tanta

Planta,
Flor-irmã da bandeira
A minha sina é verde e amarela
Feito a bananeira

Ouro,cobre o espelho esmeralda
No berço explêndido
A floresta em calda
Manjedoura d´alma

Labarágua,sete queda em chama
Cobra de ferro
Oxum-maré: homem e mulher
Na cama

Jêje
Tuas asas de pomba
Presas nas costas com mel e dendê
Agüentam por um fio

Sofrem
O bafio da fera
O bombardeio de Caramuru
A sanha d´Anhangüera

Jêje
Tua boca do lixo
Escarra o sangue de outra hemoptise
No canal do mangue

O Uirapuru das cinzas chama :
Rebenta a louça!
Oxum-maré dança em teu mar
De lama

Dorival Caymmi falou pra Oxum : ...



terça-feira, 31 de agosto de 2010

O Lado Bom da DEPRESSÃO (revista Galileu, Maio 2010)


Ela não pode ser diagnosticada por exames de sangue, detectada em chapas de raios-x ou investigada em testes de resistência física. Mas, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, será, em duas décadas, a doença mais comum do mundo. Saiba por que pesquisas recentes apontam que essa pode ser uma boa notícia para todos nós.

A depressão tem seu lado bom e que dela podemos tirar proveito se percebermos seu potencial transformador.

É o que defendem dois pesquisadores evolucionistas norte-americanos, em um estudo recente publicado no periódico Psychological Review no qual tentam desvendar o que chama de " o paradoxo da depressão". Guiados pela teoria da seleção natural de Charles Darwin (1809-1882), o psiquiatra J. Anderson Thomson, da University of Virginia, e o psicólogo Paul W. Andrews, da Virginia Commonwealth university, passaram anos tentando entender por que doenças mentais como a esquizofrenia afetam apenas 1% a 2% da população mundial, enquanto a depressão já atinge mais de 20%. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde divulgadas em setembro de 2009, essa será, em duas décadas, a doença mais comum do planeta, à frente do câncer. Residiria aí o tal paradoxo: por que uma disfunção tão sofrida também é tão comum?

Segundo Darwin - ele próprio um notório deprimido, como explicitou em várias cartas ao longo da vida -, as espécies passam por um inexorável processo de adaptação emq ue características mais favoráveis a sua existência acabam sendo passadas de geração a geração. Trata-se de um afinadíssimo mecanismo de seleção e especialização que garante a permanência de traços que nos deixam mais aptos a encarar os obstáculos. Adeptos da psicologia evolucionista acreditam que a seleção natural não envolve apenas o corpo. As características da mente humana também seriam o resultado de uma longa jornada de depuração em nome da sobrevivência e reprodução.

Se a teoria de Darwin é amplamente aceita até hoje no meio científico, argumentam Thomson e Andrews, então a depressão não pode ficar de fora. Em outras palavras, a depressão seria uma adaptação humana que chegou até nós com tamanha incidência não por acidente, mas porque precisamos dela como indivíduos.

De acordo com essa perspectiva, a depressão nada mais é do que uma resposta radical da mente para que encaremos nossos dilemas mais profundos. "Como a dor física, ela serve para sinalizar que existe um problema a ser resolvido", afirma Thomson. "Seria maravilhoso se a gente não tivesse de sentir dor. Só que não é assim. A depressão, como a dor, é um mal necessário". Esse mecanismo seria tão poderoso que nos faria parar e olhar na marra para dentro de nós mesmos, ainda que de forma muitas vezes ca[ótica, nem sempre consciente e invariavelmente sofrida. Tamanha concentração da mente tem um preço, exigindo muitas vezes terríveis sacrifícios. Por causa dela, alguns param de comer, de trabalhar, de ver os amigos e de sentir prazer.

Integrante da mesma corrente de pesquisa que tenta mostrar que a doença não é apenas uma disfunção qualquer, Edward hagen, psicólogo evolucionista da Washington State University, costuma compará-la a uma greve geral. "Por que os tabalhadores entram em greve? Porque não estão satisfeitos. acontece o mesmo com nossa mente. Trata-se de um ultimato, um pedido de socorro para que mudemos o que está nos prejudicando".

RUMINAÇÃO POSITIVA

Ao estudar as raízes evolucionistas da depressão, Andrews e Thomson focaram-se num tipo de pensamento que costuma ser comum em portadores da doença, chamado de ruminação. O nome deriva do hábito que as vacas têm de continuar mastigando por horas alimentos que já tinham engolido e voltaram do estômago. "O pensamento ruminante faz com que a pessoa pense continuamente em seus problemas", diz a psicóloga Susan Nolen-Hoeksema, da Universidade de Yale. Até recentemente, havia um consenso científico de que a ruminação não passava de um tipo inútil e improdutivo de pessimismo. A própria professora defende, em parte, essa ideia: "Em alguns casos a ruminação analítica leva o doente a remoer seus problemas de forma tão passiva e repetitiva que acaba ficando ainda mais deprimido".

Uma ala da psicologia evolucionista passou recentemente a ver a questão sob um prisma bem diferente. Andrews e Thomson acreditam que a ruminação envolve afiados processos analíticos, que, se bem orientados, de preferência com a ajuda de especialistas, podem ser produtivos, ainda que dolorosos. Por meio da ruminação, pessoas deprimidas tendem a quebrar um problema complexo em questões menores, com as quais é mais fácil de lidar. "Isso leva a melhores chandes de resolvê-los", diz Andrews. Estudos apontam ainda que a depressão aumenta a atividade cerebral de uma área do córtex pré-frontal importante para manter a atenção. Isso contribuiria para a mente permanecer mais focada em um problema, minimizando distrações. No processo, o doente pode ter insights sobre sua vida que não seriam possíveis se estivesse são.

PATOLOGIZAÇÃO DA TRISTEZA

A depressão, ou melancolia, como era citada no passado, atinge muita gente faz milênios - há menções a ela que remontam aos tempos de Aristóteles, no século 4 a.C. Mas só recentemente passou-se a aventar que a doença tenha aspectos positivos. Novos estudos tentam jogar luz ao tema, como o recém-lançado livro Manufacturing Depression: The Secret History of a Modern Disease (Fabricando a Depressão: a História Secreta de uma Doença Moderna, sem tradução no Brasil). Nele, o psicoterapeuta gary Greenberg, que também sofre de depressão, faz um relato franco do que classifica de patologização da melancolia. A partir do século 20, tristeza profunda passou a ser tachada de doença grave. Virou tema de pesquisas científicas, ganhou vocábulos cada vez mais extensos em livros de medicina e psicologia e, a partir dos anos de 1950, transformou-se em mal a ser combatido por remédios. Co-autor de The Loss of Sadness: How Psychiatry Transformed Normal Sorrow into Depressive Disorder (A Perda da Tristeza: Como a Psiquiatria Transformou Tristeza Normal em Disfunção Depressiva, inédito no País, outro interessante livro sobre o assunto, Allan Horwitz defende que isso acontece porque a psiquiatria contemporânea tende a deslocar os sintomas de seu contexto, classificando de disfunções mentais reações normais que temos diante de situações de estresse. Isso, segundo ele, tem sérias implicações não só para a medicina, mas para a sociedade em geral. "Diante dessa indústria da felicidade, que alardeia ser possível sentir-se bem o tempo todo, a gente se torna incapaz de ver a tristeza como parte natural da vida", diz. "Isso leva pessoas que estão apenas tristes ou que têm quadros mais leves de depressão a buscar saídas rápidas para sua dor por meio de antidepressivos".

Horwitz salienta, no entanto, que é preciso separar reações depressivas, que são respostas normais a situações difícies, dos transtornos graves de depressão. "Quadros complicados, como depressão bipolar, precisam, claro, ser tratados com cuidado especial, muitas vezes de forma multidisciplinar, combinando medicamentos e terapias". A própria pesquisa de Andrews e Thomson focou-se em tipos leves e moderados da doença - gente que, na opinião dos dois pesquisadores, acaba tomando antidepressivos sem necessidade, perdendo a chance de refletir sobre sua existência e tomar decisões que poderiam ser de grande valia. Culpa, segundo eles, da banalização no uso desses medicamentos.

No Brasil, os antidepressivos jã são a quarta classe de remédios mais comercializada - atrás de anti-inflamatórios, analgésicos e contraceptivos. Em cinco anos, segundo levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a venda desse tipo de medicamento cresceu 48%. Pulou de 17 milhões de unidades vendidas em 2003 para 25,9 milhões em 2008. "Hoje antidepressivos são prescritos por médicos de todas as especialidades, mesmo quando não têm certeza do diagnóstico", diz Luiz Alberto Hetem, vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). "No entanto, há casos de depressão mais graves em que os antidepressivos são imprescindíveis. Já em situações leves, o acompanhamento psicológico é, muitas vezes, suficiente para que a pessoa se restabeleça", diz. É importante salientar que distinguir um quadro grande de um leve ou moderado não é tarefa fácil. Cada caso precisa ser avaliado individualmente por especialistas na área.

Defender que depressão tem seu lado bom não significa dizer que seus portadores não precisam de tratamento. Muito menos que devam sofrer indefinidamente à espera de supostos benefícios da doença. Afinal, aí reside outro grande paradoxo da evolução: mesmo quando temos consciência de que a dor pode ser útil, a urgência em escapar dela é um de nossos mais emblemáticos instintos. Remédios, psicanálise, psicologia, cada um deve procurar o tratamento que julgar melhor para aliviar o sofrimento. Mas as recentes teorias sobre depressão trazem uma inovação preciosa ao nos mostrar que a tristeza e o pessimismo podem não ser de todo ruim, ajudando-nos a compreender nossas reações humanas de uma maneira mais natural. E a entender melhor aquele velho ditado que diz, sabiamente, que há males que vêm para bem.


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Negue

Negue.... Ainda Bem...


Nenhuma metafora

traduz a falta
nenhuma imagem
exata


Faca encravada
nesse silencio
dia sem dia
piada sem graca
acordar sem você
me MATA

FREDERICO BARROSA

Rubem Fonseca - O Seminarista

Histórias da vida do escritor que ajudam na compreensão de sua obra, no mês em que seu novo romance - O Seminarista - chega às livrarias

Por Tiago Petrik, Malu Porto e João Gabriel de Lima


 Foto:  (       0)
BUSCANDO O AUTOR NOS PERSONAGENS
José Rubem Fonseca em foto dos anos 70. Como o protagonista de O Seminarista, o escritor torce pelo Vasco da Gama, gosta de rock e costumava beber vinho durante as refeições. Com sua postura reclusa, Rubem Fonseca atiça a curiosidade do leitor sobre sua vida pessoal, levando-o a procurar o autor em seus personagens. No novo romance, as semelhanças são ainda mais intensas

O personagem principal do romance O Seminarista se chama José, gosta de árvores, torce pelo Vasco da Gama, considera o vinho a única bebida digna de acompanhar uma refeição, ouve rock, é apaixonado por poesia e tem um amigo tira de sobrenome Vásquez. O autor de O Seminarista, Rubem Fonseca, também se chama José - José Rubem, ou Zé Rubem, para os amigos. Em uma das crônicas publicadas na coletânea O Romance Morreu, assume-se como "dendrólatra", nome que se dá a alguém que gosta de árvores. Torce pelo Vasco da Gama, time carioca associado aos descendentes de portugueses, como ele. Na família de origem lusitana aprendeu a apreciar o vinho. Tornou-se fã de rock desde que, nos anos 60, descobriu o gênero nos discos da filha Maria Beatriz, a Bia, então uma adolescente. É fã de poesia e amigo do delegado Ivan Vasques, que inspirou alguns dos tiras de seus livros.

Procurar o autor nos personagens de uma obra de ficção é um dos maiores prazeres da leitura. No caso de José Rubem, essa compulsão é especialmente forte, em parte por culpa do próprio escritor. Desde que conquistou a notoriedade nos anos 60 com três esplêndidos volumes de contos - Os Prisioneiros (1963), A Coleira do Cão (1965) e Lúcia McCartney (1967) -, José Rubem passou a utilizar uma ferramenta poderosa para despertar a curiosidade alheia. Ele se recusa a dar entrevistas e a falar em público. (Apenas no Brasil, diga-se. No exterior, faz palestras concorridíssimas. Recentemente, no México, reuniu em torno dele os desafetos Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez, arrastando um público de mais de mil pessoas.) Essa curiosidade se intensificou nos últimos tempos, em que José Rubem passou a escrever crônicas autobiográficas para a internet. Nelas, o autor fala sobre a própria infância, sobre suas viagens a Nova York, Berlim e Israel e sobre suas brasileiríssimas paixões por carnaval e futebol.

Contribui ainda para atiçar a curiosidade o fato de José Rubem transferir os próprios hábitos e gostos a seus personagens. Alguns desses hábitos o escritor foi obrigado a abandonar, agora que é um homem de 84 anos. O advogado Mandrake, de A Grande Arte, gosta de beber vinho e aprecia charutos. O José Rubem da vida real não bebe mais. Recentemente, teve uma doença não diagnosticada que o tornou alérgico a álcool. Como seu histórico médico relata duas operações de úlcera (mal que, aliás, atormenta o comissário Mattos de Agosto), José Rubem decidiu matar a sede apenas com sucos e água. Quem conta é o advogado Alberto Venancio Filho, titular da cadeira 25 da Academia Brasileira de Letras, que todas as terças-feiras almoça com José Rubem e com o escritor João Ubaldo Ribeiro num bar do bairro carioca do Leblon. "Ele é de uma frugalidade tremenda", diz Alberto Venancio.

Segundo conta seu filho José Henrique Fonseca, que é cineasta, José Rubem parou também de fumar charutos. Ele cultivava o hábito desde a juventude. Ao contrário de Mandrake, que se comprazia em citar marcas e descrever os sabores sorvidos e inalados, José Rubem nunca foi um pernóstico. Nos charutos, talvez por causa do nome, ele sempre preferiu os cubanos Fonseca, mas se contentava com os baianos Pimentel número 2, mais baratos. Começou a gostar de vinhos numa época em que não havia a oferta de castas e denominações de origem que há hoje. Nos anos 50 e 60, comprava os portugueses Periquita e Casal Garcia na loja Lidador, no centro do Rio de Janeiro, e por muito tempo seguiu consumindo essas marcas.

Será que tudo o que um escritor tem a dizer sobre si próprio está em sua obra, como costuma dizer José Rubem quando quer se esquivar de uma entrevista? Trata-se de uma boa frase de efeito - que, como toda frase de efeito, é apenas meia verdade. Conhecer a biografia do autor é, sim, importante para compreender o que ele escreve. Não as fofocas e os mexericos, mas as experiências que contribuíram para a formação de seu universo literário. De acordo com os críticos, a obra de José Rubem se destaca no panorama da literatura brasileira justamente por conta desse universo. Ele foi um dos primeiros escritores pátrios a estudar a fundo a literatura anglo-saxônica, principalmente americana, sendo influenciado por ela. Também rejeitou a cartilha marxista, o que tavez tenha sido positivo para sua obra.

José Rubem Fonseca está de volta às livrarias com O Seminarista, uma bem-sucedida incursão pelo mundo do thriller. Trata-se de um romance curto, movimentado e, como um filme de Quentin Tarantino, extremamente divertido apesar das cenas ultraviolentas. O Seminarista e a reedição do conto A Arte de Andar pelas Ruas do Rio de Janeiro são os primeiros lançamentos do escritor por uma nova editora, a Agir, depois de pertencer por mais de 20 anos ao elenco da Companhia das Letras. Eles chegam às livrarias neste mês - quem compra o romance ganha o volume com o conto, ilustrado com fotos feitas por José Alberto Fonseca, o Zeca, filho do autor. O lançamento motiva a reportagem biográfica que BRAVO! publica a seguir, que tem como objetivo iluminar o universo de José Rubem e, assim, aprofundar o entendimento de sua obra.

"Rubem Fonseca é provavelmente o escritor vivo mais estudado fora do Brasil. Tomando-se a literatura brasileira de todos os tempos, talvez ele só perca para Clarice Lispector. Ele é hoje considerado um mestre da ficção policial em escala mundial, e seus livros fazem parte do cânone da literatura latino-americana." Quem afirma é o americano Thomas Waldemer, diretor do Departamento de Estudos Latinos da Universidade de Iowa. Ele próprio é um estudioso da obra de José Rubem. É autor da tese O Efêmero e o Histórico em Agosto, uma análise do romance que tem como pano de fundo o suicídio do presidente Getúlio Vargas em 1954. "É magistral, neste livro, a maneira com que o autor entrelaça a história do país com a história pessoal de um herói anônimo", diz o professor Waldemer. A carreira internacional de José Rubem inclui prêmios de prestígio como o Juan Rulfo e o Camões, ambos em 2003. Ele também é convidado com frequência para ser jurado de premiações internacionais, como a Casa de las Américas, de Cuba.

Os prêmios pelo mundo e a avaliação da academia americana (o escritor chegou a ser professor-visitante em Stanford, uma das mais prestigiosas universidades dos Estados Unidos) coroam um percurso ímpar na literatura brasileira. José Rubem iniciou sua carreira na contramão. Nos anos 50, os escritores do país continuavam presos ao chamado "projeto modernista". Eles se preocupavam em criar uma "língua brasileira", produto condensado das falas coloquiais, como queria o escritor e ensaísta Mário de Andrade. É só pensar em Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Jorge Amado. Enquanto isso, José Rubem olhava para a literatura de língua inglesa, especialmente a americana, com sua prosa seca e objetiva. Na formação de seu universo, a cultura literária (que, além dos americanos, incorporava outros escritores como o francês Gustave Flaubert) se somou a experiências concretas num longo período formativo - ele só publicou o primeiro volume de contos aos 38 anos e o primeiro romance aos 48. Esse período é marcado por sua atividade como comissário de polícia.

José Rubem entrou para a Academia de Polícia do Rio de Janeiro em 1949, logo depois de se formar em direito. Passou por um vestibular concorridíssimo. A polícia do Rio de Janeiro vivia um período de renovação e tencionava formar quadros de elite. O mentor dessa fase áurea da Academia era o delegado Jorge Pastor de Oliveira, uma figura lendária na corporação. José Rubem se tornou elite da elite, um dos três melhores alunos da classe. Os outros dois eram Ivan Vasques e Mário César da Silva, que no futuro obteriam grande destaque na carreira policial. José Rubem saiu da corporação em meados dos anos 50 para se tornar executivo na iniciativa privada, especializando-se na área de propaganda e relações públicas. Depois disso, se transformou em escritor - e Vasques, Pastor e Mário César viraram inspiração para os tiras a um só tempo cínicos e honestos que pululam em seus livros. Pastor e Vasques chegaram a participar das investigações do suicídio de Getúlio Vargas, reconstituído pelo autor em Agosto. (O período de José Rubem como comissário foi esmiuçado nos anos 90 pelo jornalista Mario Cesar Carvalho numa reportágem da Folha de S.Paulo.)

Pela polícia, José Rubem esteve nos Estados Unidos entre 1953 e 1954. "Era para ser apenas um curso sobre atividade policial na Universidade de Nova York, mas na verdade ia muito além disso. Os americanos estavam interessados em divulgar sua ideologia e modo de vida, e isso era o cerne do programa", relembra o delegado Ivan Vasques, hoje aposentado, que viajou na mesma turma com José Rubem e mais oito policiais. Foram seis meses em Nova York e depois mais três viajando pelos Estados Unidos. Os tiras do programa chegaram a participar de uma festa na casa do cônsul brasileiro em Los Angeles. Até Carmen Miranda estava na lista de convidados. Durante a viagem, José Rubem aperfeiçoou seu inglês e fez contatos para uma segunda temporada nos Estados Unidos. De acordo com a professora Aline Andrade Pereira, da Universidade Federal Fluminense, que pesquisou esse período da vida do escritor, José Rubem teria estudado administração em dois cursos de verão consecutivos, na Universidade de Boston, nos anos de 1956 e 1957. Depois de voltar, continuou acompanhando a vida americana através de uma assinatura da revista Time.

Segundo seus amigos, José Rubem se apaixonou pelos Estados Unidos. Quando falavam mal do país de John Kennedy - algo que era moda no Brasil dos anos 50 e 60 -, José Rubem cortava na hora: "Deixa de ser ignorante". De acordo com o jornalista Sérgio Augusto, que convive com o escritor desde o início dos anos 60, as conversas literárias entre ambos giravam em torno de autores como Philip Roth, Norman Mailer e Saul Bellow. Suas leituras abarcavam também uma vertente mais pop. "Ele descobriu na América os policiais de Raymond Chandler e Dashiell Hammett", diz o escritor Cícero Sandroni, presidente da Academia Brasileira de Letras e amigo de José Rubem. "Influenciado por esses autores, instituiu uma revolução na literatura brasileira, que consistia em escrever em ordem direta. Parte disso vem do pulp fiction, da literatura popular. Sua obra nos ajudou a deixar de lado a herança ibérica e nos aproximou dos Estados Unidos."

Outra influência importante na formação do universo de José Rubem é o cinema. Ele costuma dizer, meio de brincadeira, que optou pela literatura porque ganhou uma máquina de escrever quando era adolescente. Se o presente fosse uma câmera, seria cineasta. Gosta de acompanhar de perto as adaptações literárias de seus livros. Foi assim em Bufo & Spallanzani (2001), de Flávio Tambellini. Ele fez questão de participar do roteiro e das filmagens. "José Rubem contraria o clichê do autor excessivamente apegado à sua obra", diz Tambellini. "É o primeiro a mudar a feição de um personagem, ou mesmo fundir vários num só, quando a trama do filme assim exige." José Rubem trabalhou no roteiro de Bufo & Spallanzani junto com a escritora Patrícia Melo e o próprio Tambellini. Mais tarde, em 2003, ajudou a escrever o roteiro de O Homem do Ano, baseado no livro O Matador, de Patrícia Melo. Acompanhou de perto as filmagens, por puro prazer. José Rubem chegou a aparecer em locações longínquas, como uma cena rodada em Nilópolis, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro. No set de filmagem, costumava dizer: "Eu adoraria fazer isso, mas é uma trabalheira...".

"O romance Agosto é o último gesto de servidão de Rubem Fonseca a seu amo Gallotti, o testa de ferro da Light." A frase, proferida pelo antropólogo Darcy Ribeiro nos anos 90, referindo-se ao presidente da então maior empresa privada do país, dá a exata medida do patrulhamento ideológico sofrido pelo escritor por causa de suas posições políticas. Num país em que 90% dos intelectuais e escritores se definem como de esquerda, o autor de Agosto sempre se apresentou como um liberal. Como liberal, jogou no lado contrário dos marxistas durante o período mais polarizado da história política brasileira - o início dos anos 60, a época em que João Goulart ocupou a Presidência da República. Essa época é relevante na vida do escritor também por outra razão. Foi em parte graças à convivência com a turma que se opunha ao presidente - e mais tarde ajudaria a articular o golpe militar de 1964 - que José Rubem publicou seu primeiro livro de contos, Os Prisioneiros.

José Rubem era bastante próximo de dois ícones da direita daquela época. O primeiro é o já citado Antonio Gallotti, que o jornalista Elio Gaspari aponta em seu livro A Ditadura Derrotada como um dos executivos mais influentes do país. Gallotti era presidente da Light, a maior empresa privada do Brasil na época. Assim o define Gaspari: "um homem hábil em manipular a conexão do Estado com seus negócios, anticomunista, articulador de seus pares e assustado com a influência esquerdista no governo Goulart". Tinha muitos críticos, mas também os que o consideravam um visionário, por perceber a necessidade do investimento externo para o crescimento do país. "Gallotti era um homem excepcional, que entendeu como ninguém a questão do capital estrangeiro no Brasil", diz o advogado Candido Mendes, da Academia Brasileira de Letras, que nos anos 50 foi aluno de Gallotti na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - e que, mais tarde, dividiria uma sala na Light com um ex-policial que debutava na carreira de executivo: José Rubem Fonseca.

Gallotti foi um dos fundadores do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o Ipês, organismo fundado em 1962 com o objetivo de disseminar um pensamento liberal e antimarxista. José Rubem, que trabalhava no departamento de relações públicas da Light, foi recrutado para fazer parte do organismo. Ele assinou a ata de fundação e ocupou cargos de chefia no Ipês durante o período em que este existiu, até 1971, contribuindo inclusive financeiramente com a instituição. Quem afirma é a professora Aline Andrade Pereira, doutora em história pela Universidade Federal Fluminense e autora da tese O Verdadeiro Mandrake: Rubem Fonseca e Sua Onipresença Invisível (1962-1989). "Rubem Fonseca participava de todas as reuniões. Há transcrições de opiniões dele, com assinatura na ata, em geral no cargo de 'secretário'. Não encontrei provas definitivas, mas várias pessoas afirmaram que ele era o autor dos roteiros dos filmes publicitários do Ipês". Ela se refere a comerciais que exaltavam a efervescência da iniciativa privada no Brasil dos anos 60, dirigidos por Jean Manzon. Muitos deles estão disponíveis no site que reúne o acervo do fotógrafo e cineasta: http://www.acervojeanmanzon.com.br (José Rubem refuta a afirmação de que esteve no Ipês até 1971. Diz que saiu da instituição em 31 de março de 1964, data do golpe militar).

Foi no Ipês que José Rubem conheceu outro ícone da direita da época: o general Golbery do Couto e Silva. "Quando trabalhou no Ipês, ele frequentou muito o general Golbery. E eu me lembro do fascínio do general Golbery com o José Rubem", diz Candido Mendes. "Acima de tudo, Golbery admirava o José Rubem por sua capacidade, sua implacabilidade de raciocínio." Foi no gabinete de Golbery que José Rubem viria a conhecer o seu primeiro editor, o baiano Gumercindo Rocha Dorea. Gumercindo, ex-militante integralista, dirigia a editora GRD e se aproximou de Golbery ao saber que o Ipês apoiava a publicação de livros que fossem ideologicamente afinados com o Instituto.

Gumercindo soube pela jornalista Fernanda Gurjan, então estagiária do Ipês, que José Rubem era contista nas horas vagas. Mais do que indicar o amigo, Fernanda deu ao editor baiano os originais de alguns de seus contos, que mantinha numa gaveta. Gumercindo tinha gosto especial por lançar novos autores - Nélida Piñon e Dinah Silveira de Queiroz também haviam publicado seus primeiros livros pela GRD. Encantou-se de cara com a prosa enxuta de José Rubem. Depois de alguma relutância, José Rubem topou a publicação com uma condição: que o capista fosse seu filho, José Alberto Fonseca, o Zeca. "Só dias mais tarde soube que Zeca tinha apenas 5 anos de idade, mas a capa ficou linda", diz Gumercindo, que guarda até hoje a primeira edição de Os Prisioneiros, lançado em 1963. José Rubem também publicaria pela GRD seu segundo livro, A Coleira do Cão, de 1965 - volume que até hoje muitos críticos consideram sua obra-prima na área da narrativa curta.

Nos anos 90, José Rubem publicou um artigo comentando de forma sucinta sua participação no Ipês. Segundo ele, foi uma decorrência de sua atividade empresarial, como executivo da Light. José Rubem nega ter colaborado com a ditadura depois que esta se estabeleceu. Não há por que duvidar dele, até porque o escritor seria mais tarde vítima da censura. Em 1975, seu livro de contos Feliz Ano Novo foi tirado de circulação, numa leva que incluiu também Araceli, Meu Amor, de José Louzeiro, e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. Segundo o escritor Cícero Sandroni, o então ministro da Justiça Armando Falcão tinha um exemplar de Feliz Ano Novo em sua mesa. E costumava lamentar: "E esse autor estava do nosso lado!". Quando a Light foi estatizada pelos militares, ele foi um dos primeiros a perder o emprego. José Rubem se opôs à ditadura e ao endurecimento do regime, mas continuou amigo de seus amigos pré-golpe. Em 1979, o escritor foi indicado por Antonio Gallotti para participar da administração municipal do Rio de Janeiro, durante a gestão do prefeito biônico Israel Klabin, outro ex-integrante do Ipês. Após alguma relutância, acabou aceitando presidir a Fundação Rio Arte, embrião da atual Secretaria Municipal de Cultura.

Qual a relevância da atividade política de José Rubem para a sua obra, além de lhe fornecer contatos para publicar o primeiro livro? Pode-se dizer que as crenças políticas do escritor evitaram que sua ficção sofresse, como a de tantos autores, a influência do marxismo - e isso pode ter sido bom. Seus personagens vivem numa realidade mais complexa do que aquela de que o conceito de "luta de classes" tenta dar conta. O tempo passou, o Muro de Berlim caiu e José Rubem - como se verá adiante - presenciou sua demolição. Desde cedo em sua carreira, no entanto, o escritor já agia como se ele não existisse.

José Rubem não bebe mais nem fuma charutos, mas continua fiel às suas outras paixões. Entre elas, os exercícios físicos, os computadores e as mulheres. Ele não tem mais energia para o vôlei de praia - "lembro de meu pai cravando cortadas na areia", diz o filho José Henrique Fonseca -, mas continua gostando das longas caminhadas pelas ruas do Leblon. Segundo o amigo Alberto Venancio Filho, José Rubem acorda todos os dias por volta das 5h da manhã para andar no calçadão. Depois do exercício checa os e-mails. José Rubem sempre foi fanático por computadores. O cineasta Flávio Tambellini diz que decidiu filmar Bufo & Spallanzani porque seria o primeiro romance brasileiro em que aparecem essas máquinas. José Rubem costuma disputar com o amigo João Ubaldo Ribeiro, outro geek assumido, quem tem o melhor equipamento. Segundo João Ubaldo, o autor de Agosto tem vantagem, mas ele está diminuindo a diferença...

José Rubem permanece também fiel às mulheres. Segundo seus amigos, mantém uma vida amorosa ativa. A essa altura da vida, rótulos como "noiva" ou "namorada" não fazem mais sentido, mas o escritor continua cultivando amizades femininas. "Ele não tem séquito de admiradores, só admiradoras", diz o poeta Geraldo Carneiro, que adaptou para a TV e para o teatro o conto Lúcia McCartney. Há certo folclore aí. José Rubem é famoso por aconselhar autoras em início de carreira, mas lê os originais de escritores homens também, dando sugestões. "José Rubem é uma das pessoas mais generosas que conheço", diz a escritora Patrícia Melo, dona de uma carreira literária vitoriosa em que se destaca o romance O Matador, traduzido para várias línguas. Ela transformou José Rubem em personagem de seu livro Jonas, o Copromanta - no qual brinca com o assédio que o escritor sofre.

Os encontros entre homens e mulheres nos livros de José Rubem costumam ter alta voltagem erótica. Os tipos masculinos identificados como seus alter egos fazem muito sexo, mas raramente se apaixonam. José Joaquim Kibir, o personagem central do livro O Seminarista, é exceção. Matador de aluguel, ele "pendura o revólver" e tenta recomeçar a vida sob nova identidade. Em sua segunda encarnação, Kibir se apaixona por uma moça de origem alemã chamada Kirsten. Há cenas de sexo no livro - caso contrário, José Rubem não seria José Rubem. Mas há, principalmente, momentos românticos - o casal central lendo poesia na cama, cozinhando ou dormindo abraçado. "Muitas pessoas devem achar estapafúrdio um sujeito que matou por encomenda ser dominado por sentimentos dessa natureza", diz o personagem no livro. "Para falar a verdade eu também me considerava incapaz de uma emoção tão profunda, sentia tesão pelas mulheres, e admiração, mas paixão nunca sentira antes. Na verdade, amor est vitae essentia, o amor é a essência da vida." Tal tom enamorado é raro na literatura de José Rubem.

Seria Kirsten uma homenagem de José Rubem a Théa Maud Komel, a mãe de seus três filhos? Talvez nem o próprio escritor tenha consciência disso, mas existem identidades entre as duas personagens. Théa, como Kirsten, era de família originária do Leste Europeu - mais precisamente, da Eslovênia. Kirsten e Théa têm a mesma profissão, a de tradutora. No livro, Kirsten verte para o alemão clássicos da literatura brasileira. Na vida real, Théa traduzia livros do inglês para o português. Na descrição da filha, a psicanalista e escritora Bia Corrêa do Lago, Théa era alegre e animada, gostava de gente e tinha um riso fácil, outras características em comum com a personagem. Théa morreu em 1997, aos 68 anos, de uma doença degenerativa. Entre o diagnóstico e a morte decorreram apenas nove meses. Segundo os amigos, o processo foi extremamente doloroso, devastador mesmo, para o autor.

A mulher com quem José Rubem foi casado a vida toda é fundamental para sua carreira como escritor. Foi ela que o incentivou a, já perto dos 50 anos, diminuir suas atividades profissionais e a se dedicar inteiramente à literatura. Mais do que isso: ela "protegia" o autor da vida familiar, de forma que ele pudesse se concentrar em seu trabalho. Não permitia que os três filhos interrompessem José Rubem quando ele estava escrevendo no escritório. "Eu, como caçula temporão, deveria ser infernalmente chato. Minha mãe preservava meu pai da presença daquele moleque", diz o filho José Henrique. "Só adulto, quando pude trabalhar com ele nas adaptações de O Homem do Ano e Agosto, pude ter acesso a esse pai que ficava isolado escrevendo." "Ele tinha muito pouco tempo e trabalhava de noite", diz o filho Zeca. "Alguém era privado desse tempo em que ele ficava escrevendo, e esse alguém era a família. Meu pai tinha pouco tempo para ser um pai normal, de levar a gente para os lugares."

Hoje José Rubem não precisa mais se isolar para escrever. Ele mora sozinho num apartamento no bairro carioca do Leblon. Um apartamento que, aos poucos, vem se transformando numa biblioteca. O escritor costuma dizer aos amigos que lê um livro por dia, e os livros vão se acumulando. De tempos em tempos, José Rubem tem que comprar uma estante nova. O filho José Henrique calcula que haja lá cerca de 8 mil livros. "O apartamento está todo tomado de estantes, falta apenas a cozinha", diz ele.

José Rubem é o mais influente dos escritores brasileiros da atualidade, mas, por sua reclusão, nunca teve um rosto conhecido. Dois episódios anedóticos, um remoto e um recente, ilustram isso. José Rubem estava em Berlim em 1989, época da queda do muro. Era bolsista do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico. No dia em que o muro caiu, José Rubem foi testemunhar o momento histórico e acabou sendo interpelado pelo jornalista Luiz Carlos Azenha, então correspondente da TV Manchete. Ao ouvir o escritor falando português com sua tradutora, Ute Hermanns, o repórter o interpelou, sem saber que se tratava do famoso autor brasileiro. Incógnito, José Rubem deu uma de suas poucas entrevistas para a televisão brasileira. (Outro momento histórico que o escritor presenciou, segundo relata numa crônica, foi a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950. Ele estava na arquibancada do Maracanã.) O segundo episódio é mais prosaico. Recentemente, José Rubem caminhava pelas ruas do Leblon com o filho mais novo, José Henrique, e a nora, a atriz Cláudia Abreu. O trio foi flagrado por um paparazzo em busca de um instantâneo da estrela da TV Globo. Na legenda da foto, José Rubem seria posteriormente creditado como pai de Cláudia.

Depois de ver a foto publicada na capa de BRAVO! (e outras imagens de divulgação feitas especialmente para o lançamento do novo romance), o leitor desta reportagem não incorrerá no erro de Azenha e dopaparazzo. Não é difícil cruzar com José Rubem nas ruas do Rio de Janeiro. Ele frequenta assiduamente vários lugares no bairro carioca do Leblon. Entre eles, a praça Antero de Quental, perto do campo de treinos do Flamengo. José Rubem resolveu "adotar" um dos ipês da praça. Ele paga um jardineiro para cuidar da planta. José Rubem adora árvores, como o personagem Epifânio, do conto A Arte de Andar pelas Ruas do Rio de Janeiro, que abraçava os troncos do Campo de Santana. Na crônica Desventuras de um Dendrólatra, José Rubem cita o escritor polonês Czeslaw Milosz, que num poema chamado Anelo diz querer ser uma árvore para crescer sem ferir ninguém. José Rubem é uma pessoa prática, liberal em política e agnóstico em religião, e não assinaria embaixo de frases pretensamente edificantes como esta - mas alguns de seus amigos dizem que o verso de Milosz bem poderia ser o seu lema, se o escritor fosse o tipo de pessoa que adota um.

Tiago Petrik é jornalista e escritor, autor do livro 1932 - Uma Aventura Olímpica na Terra do Cinema.

Malu Porto é colunista do site Colherada Cultural: www.colheradacultural.com.br.

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OS LIVROS
O Seminarista. Editora Agir, 184 págs., R$ 36,90 (inclui a edição ilustrada do conto A Arte de Andar pelas Ruas do Rio de Janeiro). A Agir está relançando também os volumes de contos Os Prisioneiros (176 págs., R$ 39,90) e Lúcia McCartney (240 págs., R$ 39,90).