segunda-feira, 31 de maio de 2010

Alice no País do Espelho


“Criança pura, de olhar despreocupado
E o rosto sonhador das maravilhas!
Embora o tempo seja rápido e suas trilhas
Por meia vida nos tenham separado,
Teu sorriso contente saudará as baladas
No dom de amor deste conto de fadas

Teu rosto radiante não vi nem verei,
Nem hei de escutar teu riso argentino:
Jamais pensarás do autor no destino.
Em tua juventude lugar não terei.
Mas basta que agora escutes as baladas
Singelas, contidas em meu conto de fadas.

Num tempo distante ocorreu esta história,
Quando o sol de verão brilhava feliz.
Um toque de sino que agora nos diz,
Num ritmo leve, que traz à memória
Os ecos da infância e faz relembrar
O que a inveja da idade preferia apagar!

Escuta-me agora, pois a voz do pavor
De notícias amargas virá carregada;
Em breve a teu leito será convocada
A mulher melancólia do luto e temor.
A hora do leito é como o fim da vida:
Somos apenas crianças mais velhas, querida.

Há geada lá fora, há neve cegante,
Os caprichos do vento, a feroz tempestade;
Mas no ninho infantil, em que a felicidade
Se aquece à lareira de luz crepitante
Tua atenção será presa pelas palavras mágicas
E não hás de temer as rajadas mais trágicas.

Se enfim a sombra esquiva de um suspiro
Profundo tremular ao longo da história,
Dos dias de verão pela perdida glória,
Pelo feliz fulgor que te alegrou o mundo,
Não poderá afetar, com tristezas aladas,
A alegria e o frescor deste contos de fadas.”

caminho
Lewis Carrol

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