quarta-feira, 30 de junho de 2010

A alma menstrua

“Sim, nossa alma menstrua. A alma fica fértil - nalgum momento, a gente é capaz de procriar. E descobre que mamãe estava errada: virar mulher não é ter cólicas, nem usar absorventes.

Sem perceber, a gente dorme criança e encontra a calcinha da alma encharcada.

A gente vai decidindo tudo: o financiamento do carro, o armário de seis portas, aquela viagem há tanto tempo desejada.

Sem perceber, a gente vai aprendendo a optar, e descobrindo, aridamente, que tudo é um grande jogo de escolhas. Permitir intrusos, aceitar ofensas, abaixar a voz, engolir a mágoa, aquele filho que não fizemos, o casamento que não teremos, o porre perfeitamente escolhido, o banho quente no dia ruim.

A alma menstrua.

Nalgum momento, a gente se dá conta de que somos responsáveis pelo que nos causam. É dolorido, sim. A gente acorda mais molhada, mais doída, mais distante. Mais serena. Mais presente. No presente.

De repente, acordei assim.Acendi uma vela de sete dias (nem sei se por superstição ou vontade mesmo de que as escolhas sejam iluminadas), coloquei o lixo pra fora, tirei aquele cara do caminho, me perdoei pela boa esposa que não consegui ser, senti saudade de um beijo antigo e leve, vesti meu cachecol, escolhi esmalte novo, comprei pipoca com bacon, porque já não é mais possível culpar este ou aquele.

Dei-me conta das limitações que são tantas. Dei-me conta das escolhas erradas, repetidas vezes. Dei-me conta do cansaço que causo, do sossego que não me permito. Dei-me conta de que, sem perceber, a alma menstrua.

E a gente acaba com cólica de si mesma. Do que permitimos aos outros, do que não nos permitimos.

Enquanto a vela queima, vou queimando decisões erradas. Mas no fundo, ainda alegre, porque cedo ou tarde, seria preciso que essa alma sangrasse…”

Raquel Lemos

segunda-feira, 28 de junho de 2010

antro_bukowski_bottle.jpg Nasceu em 1920 em Andernach, Alemanha, filho de uma alemã e de um funcionário norte-americano em missão durante a ocupação Americana da Alemanha no fim da primeira guerra mundial. Foi com os pais para a Estados Unidos da América com dois anos de idade. Publicou mais de sessenta livros entre poesias, estórias curtas e romances. Depois de criar Story e Portfolio passou dez anos sem escrever nada. Chegou à enfermaria de indigentes do Los Angeles Country General Hospital com uma grave crise de hemorragia, resultado de dez anos de contínua embriaguez. Há quem diga que não morreu. Ao receber alta, conseguiu uma máquina de escrever e voltou ao trabalho - desta vez poemas.

Mais tarde dedicou-se outra vez à prosa, ganhando certa notoriedade com a coluna Notas de um Velho Safado, publicada principalmente pelo jornal alternativo Open City. Funcionário dos Correios durante 14 anos, demitiu-se ao completar 50, para, segundo ele, não acabar enlouquecendo. Depois disso, não procurou mais emprego e "limitava-se a comer fitas de máquinas de escrever". Comeu tanta finta de máquina de escrever que logo depois publicou sua primeira novela, Post Office (Cartas na Rua, ed. Brasiliense). Casado e divorciado uma vez, amasiado em profusão, teve uma filha.

Suas histórias de sacanagem imortal saíram sobretudo em publicações da imprensa alternativa, entre as quais Open City e Nola Express. Outras foram compradas por Evergreen, Review, Knight, Pix, Berkeley Barb, Adam e Adam Reader.Em 1984, três de seus livros estiveram, por algum tempo, na lista de Best Sellers no Brasil.

Em matéria de Bukowski, as opiniões continuam divididas. Parece que não há meio termo. As pessoas adoram ou detestam o que ele escreve. Histórias e façanhas de sua própria vida são tão descabeladas e estranhas como as que brotam da sua imaginação. Em certo sentido, Bukowski foi uma lenda, um doido,um recluso, um conquistador...carinhoso, perverso...nunca igual.

Buk não conseguiu concretizar "a grande trapaça" e a dona Morte o fisgou em março de 1994 aos 74 anos. Nada mal, para um cara que, antes dos 50, foi parar na emfermaria dos indigentes com hemorragia interna provocada pelo abuso do álcool.

http://subcultura.org/inferninho/70-charles-bukowski.html

sábado, 26 de junho de 2010

Charles Bukowski

“Eu não tinha interesses. Eu não tinha interesses por nada. Não fazia a mínima idéia de como iria escapar. Os outros, ao menos, tinham algum gosto pela vida. Pareciam entender algo queme era inacessível. Talvez eu fosse retardado. Era possível. Freqüentemente me sentia inferior. Queria apenas encontrar um jeito de me afastar de todo mundo. Mas não havia lugar para ir. Suicídio? Jesus Cristo, apenas mais trabalho. Sentia que o ideal era poder dormir por uns cinco anos, mas isso eles não permitiriam.” - Charles Bukowski

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Abri janelas, esvaziei gavetas, arredei colchão.
Vou tirar a mala de cima do armário. Limpar. Ariar. Deixar quarar.
Tem a ver com abril e outonos. Com Clarices e Chicos.
Ouvir mais, gritar menos.
Aspereza e doçura.
(porque não não é resposta)
Nem sempre ganhar - um jogo, uma guerra - é o mais importante. Até porque, quase sempre, nem é partida, nem batalha. Mas quase sempre a gente nem sabe.

...


# . por Joelma Terto .

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Depressão será o grande mau do século XXI



A depressão é uma doença que afeta o estado de humor e reduz a capacidade de sentir satisfação ou prazer. Hoje, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, a depressão acomete cerca de 10% dos brasileiros, com maior incidência entre pessoas de 20 a 30 anos e acima dos 60 anos. Porém, um dado da Organização Mundial da Saúde (OMS) é ainda mais alarmante: até 2030 a doença deverá ser a segunda maior causa da perda de qualidade de vida no mundo.

Por ter uma alta incidência, a depressão exige atenção por conta da falta de informação e o desconhecimento dos principais sintomas pela população, que, muitas vezes, deixa de buscar tratamento adequado por não saber distinguir tais sinais. Exemplo disso é a frequente associação de uma simples tristeza à depressão.

O estado clínico de depressão só se caracteriza quando há ocorrência de quatro ou mais sintomas ao mesmo tempo.

A origem da depressão está ligada diretamente a circunstâncias estressantes da vida, desequilíbrio químico, fatores genéticos, de personalidade e ambientais. Por isso, é fundamental saber identificar corretamente os sintomas, sempre com o auxilio e diagnóstico de umespecialista.

Deve-se ter em mente que a depressão pode matar, ou por suicídio, ou por agravar uma doença já existente. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a doença está associada à morte de cerca de 850 mil pessoas por ano.

O tratamento da depressão, seja ela em estágios leves, moderados ou graves, quase sempre é realizado com auxílio de antidepressivos e terapias, e buscam amenizar prejuízos no dia a dia das pessoas, suas relações familiares e profissionais.

O paciente precisa ter em mente que o tratamento é de longo prazo e que costuma surtir efeito entre duas a quatro semanas de medicação. Para um melhor resultado, o processo deve ser mantido por alguns meses após o término dos sintomas, assegurando que o paciente não tenha uma recaída. Contudo, há casos de depressão recorrente que necessitam de tratamento prolongado que pode atingir dois, cinco ou mais anos.

Os principais sintomas da depressão são:

- Distúrbios do sono: insônia ou hipersônia; - Sensação de inutilidade; - Dificuldade de concentração; - Sentir-se chateado a maior parte do tempo; - Perda ou ganho significativo de peso; - Interesse diminuído ou perda de prazer para realizar as atividades rotineiras; - Culpa excessiva; - Fadiga ou perda de energia; - Agitação ou retardo psicomotor; - Ideias recorrentes de morte ou suicídio.

Por Dr. Teng Chei Tung

do site http://seboeacervo.blogspot.com/2010/06/depressao-sera-o-grande-mau-do-seculo.html

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A Sinistra verdade sobre os contos de fada

A Verdade dos Contos

Creio que não é só eu que conhece vários contos de fadas graças a Disney e quem sabe, outras produtoras de vídeos. O problema é que aquela versão fica para nós como a “certa” ou a “normal” e taxamos as originais com a “hardcore” ou a “true metal” ou também “from hell agressive”. Seja como for que se expressem, leiam o texto retirado do Leitor e conheçam um pouco das histórias que cresceram ouvindo, lendo e assistindo:





Chapeuzinho Vermelho

A versão desse conto que conhecemos é aquela em que Chapeuzinho Vermelho, no final, é salva pelo caçador, que mata o lobo mau.

Porém, a versão original do francês Charles Perrault não é tão bonita. Nessa versão, chapeuzinho é uma garotinha bem educada que recebe falsas instruções quando pergunta ao lobo sobre o caminho até a casa da vovó. No fim, ela é simplesmente devorada pelo lobo. Só isso, e a história acaba. Não há caçador e nem vovozinha, apenas um lobo gordo e a Chapeuzinho Vermelho morta. A moral da história é que não se deve falar com estranhos.




A Pequena Sereia
A versão de 1989 de A Pequena Sereia poderia ser intitulada “A Grande Sortuda”. Nessa versão da Disney, a princesa Ariel termina sendo transformada em um ser humano para que possa casar com Eric. Há uma festa maravilhosa com a presença de seres humanos e seres do mar.

No entanto, no original de Hans Christian Andersen, Ariel vê o príncipe casar-se com outra e entra em desespero. Oferecem-lhe uma faca com a qual ela poderia matá-lo, mas, em vez disso, ela salta para o mar e morre ao voltar para a costa. Hans Christian Andersen modificou um pouco o final para amenizar a história. Na nova versão, ao invés de morrer na espuma da praia, ela se torna “filha do ar”, esperando ir para o céu. De qualquer forma, ela morre.


A Branca de Neve

Na história da Branca de Neve que nós conhecemos, a rainha manda o caçador matá-la e trazer seu coração como prova. O caçador não consegue fazer isso e lhe traz o coração de um tipo de porco.

A boa notícia é que a Disney não distorceu tanto essa história, mas omitiu detalhes importantes: no conto original, a rainha pede o fígado e os pulmões de Branca de Neve, que serão servidos no jantar daquela noite! Também no original, a princesa acorda com o balanço do cavalo do príncipe, enquanto era levada para o castelo. Não há nada de beijo mágico. O que o príncipe queria fazer com o corpo desfalecido de uma garota é algo que vou deixar para sua imaginação. Ainda na versão dos irmãos Grimm, a rainha má é forçada, no final, a dançar até a morte usando sapatos de pedra, quentes como brasas.

A Bela Adormecida

Na versão conhecida de A Bela Adormecida, a adorável princesa adormece quando fura seu dedo em uma agulha. Ela dorme por cem anos até que o príncipe finalmente chega, beija-a, e acorda-a. Eles se apaixonam, casam, e (surpresa!) vivem felizes para sempre.

Contudo, o conto original não é tão doce. Nele, a jovem garota adormece por causa de uma profecia, não de uma maldição; e não é o beijo do príncipe que a desperta: o rei a vê dormindo e, querendo se divertir, a estupra. Depois de nove meses, nascem duas crianças (e ela continua dormindo). Uma das crianças chupa o dedo da mãe, retirando a peça de linho que fazia ela dormir. A princesa acorda para saber que foi estuprada e é mãe de gêmeos. Fim.


João e Maria

Na versão largamente conhecida de João e Maria, ouvimos sobre duas crianças que se perdem na floresta e encontram uma casa feita de doces e guloseimas que pertence a uma bruxa. Elas então são aprisionadas enquanto a bruxa se prepara para comê-las. Eles conseguem escapar e atiram-na no fogo, salvando-se.

Numa versão francesa mais antiga (chamada As Crianças Perdidas), ao invés de uma bruxa, há um demônio, que também é enganado pelas crianças. Contudo, ele não cai na cilada e está prestes a colocá-los na guilhotina. As crianças fingem não saberem como entrar no instrumento e pedem para a esposa do demônio mostrar como se faz. Nesse momento, elas cortam seu pescoço e fogem.

Cinderela

Na Cinderela moderna, nós temos a linda princesa casando-se com o príncipe depois que este viu que o sapatinho de cristal servia em seus pés.

Esse conto tem suas origens por volta do século I a.C, no qual a heroína de Strabo se chamava Rhodopis, não Cinderela. A história era muito parecida com a atual, com exceção dos sapatinhos de cristal e da abóbora. Porém, oculta por trás dessa linda história há a versão mais sinistra dos irmãos Grimm: nela, as irmãs de Cinderela cortam partes dos próprios pés para que eles caibam no sapato de cristal, querendo enganar o príncipe. Ele, então, é avisado por dois pombos, que bicam os olhos das irmãs. Elas passam o resto de suas vidas como mendigas cegas enquanto Cinderela vive no castelo do príncipe.

Os Três Porquinhos

O conto dos Três Porquinhos foi muito amenizado para as crianças de hoje, ao contar uma história cheia de violência sem mostrar violência. Terminamos com um conto muito simplório que mostra “como é bom ser esperto”.

A história original perdeu muito. O conto original não é mais longo, já que o lobo mau não perde tanto tempo assoprando casas. Ele faz isso para pegar os dois primeiros porquinhos. Aqueles coitados são logo pegos e devorados. O terceiro porquinho – o mais esperto de todos – é o entrave. Sem conseguir assoprar a casa de tijolos, o lobo tenta blefar. Ele faz de tudo para trazer o porco para fora de casa, promete nabos, maçãs, e uma visita à feira. O porco recusa a tentação, sabendo que há coisas mais importantes. O lobo decide então voltar à violência. Ele escala a casa e entra pela chaminé. Porém, o porquinho tinha planejado isso, e colocou um caldeirão de água fervendo na lareira. O lobo cai ali dentro e morre. Ele – e os dois outros porquinhos em seu estômago – são agora o sinistro jantar do terceiro porco.

Fonte:
Zona Nerd

Quase-quase

Por: Márcio Ezequiel – escritor, mestre em História/UFRGS

O Dia dos Namorados nos traz muitas lembranças. Bons momentos. Horas difíceis. Bons relacionamentos, outros nem tanto. E os namoricos de infância? Ninguém esquece, não é mesmo? E de quem gostamos e não chegamos a namorar? Quando crianças, tem um período na vida da gente em que se gosta sem ter um nome pra esse gostar. É algo puro. É simples. É gostar por gostar. Sem rótulos, nem bulas. Sem efeitos colaterais. E não tem remédio, todos passamos por isso. É um quase-namoro. Será que lembramos bem desses casinhos?

Pois me dei conta que sim. Lembro com detalhes de Karine. Era uma menina cor de giz, meio sem graça, meio doce. Tinha canela fina e cabelo curto. Parece que a estou vendo. Lá está, em 1980, escondida na garagem do edifício em que morei em Porto Alegre. Ainda brinca, sem saber que a olho daqui da cidade dos doces três décadas depois. Pernas leves, pulando amarelinha. Saia comprida, esvoaçante e blusão azul arremangado quase aos cotovelos. Da primeira vez que a vi, senti algo para o qual não tinha nome.

Foi algo à primeira palavra. Falou comigo e seguiu falando, falando tal como me conhecesse há dias. Quando criança não se pensa o tempo em meses e anos, mas só em dias. Como se na folhinha houvesse sempre aqueles mesmos números grandes. Então, mostrou-me algumas figurinhas querendo fazer trocas. Sim, eu também tinha muitas repetidas, mas não daquelas dela, que se chamavam “Amar é...”. Os meus álbuns eram de jogador de futebol e de super-heróis. Aceitei umas trocas. Só pra agradar. É de novinho que se aprende os galanteios. Ela perguntou junto com a resposta se eu morava ali, apontando a porta do zelador. Acho que nem viu minha cabeça balançando que sim, meio sem graça. Não tenho ao certo quanto tempo moramos lá. Uns dois anos, eu acho. Ah, mas brincávamos muito. Eu na "bici", lá e cá. Fazia o “8”, cortava o céu dela. Ainda ouço como contava seus saltos sem queimar a linha. Sua voz de menina gritando números ainda ecoa na minha cabeça como se fosse hoje.

Quando adultos passamos a contar os anos em voz baixa. A malha dos boxes baldios pintada no chão da garagem formava as estradas de nossa cidade de mentirinha. De um carro aqui e outro ali, fazíamos casas, esconderijos, paredes. E tinha tudo: padaria, farmácia, ponto de ônibus. No ar, um cheiro de escapamento. Atrás do Chevete verde metálico do pai dela, era o ferrolho. Militar aposentado, ele. Outros carros de outros pais também estavam lá. O meu pai não tinha carro. O nosso apartamento ficava ali no garajão, de modo que eu sempre sabia quando ela descia pra brincar. E lá ia eu. Todo bobo, todo exibido pra brincarmos de Cyborg e Mulher Biônica, de Superman e Lois Lane, de Homem Aranha e Mulher Maravilha.

Bons tempos... bons tempos. Eu gostava dela sem saber o que era gostar. E depois já gostava gostando, só não deu pra saber como chamar aquele sentimento. Amar é... Percebo agora o modo como alteramos nossas memórias com base nos conceitos que associamos ao que não tinha nome na infância. E adultos que agora somos, sem receita na mão, acrescentamos rótulos em tudo, lemos as bulas e tratamos os efeitos colaterais no divã. A vez que lhe beijei o magrinho do rosto, tenho quase certeza que pensei em algo doce e após pagar a prenda ela me disse: agora eu é que me escondo!