sexta-feira, 18 de junho de 2010

Quase-quase

Por: Márcio Ezequiel – escritor, mestre em História/UFRGS

O Dia dos Namorados nos traz muitas lembranças. Bons momentos. Horas difíceis. Bons relacionamentos, outros nem tanto. E os namoricos de infância? Ninguém esquece, não é mesmo? E de quem gostamos e não chegamos a namorar? Quando crianças, tem um período na vida da gente em que se gosta sem ter um nome pra esse gostar. É algo puro. É simples. É gostar por gostar. Sem rótulos, nem bulas. Sem efeitos colaterais. E não tem remédio, todos passamos por isso. É um quase-namoro. Será que lembramos bem desses casinhos?

Pois me dei conta que sim. Lembro com detalhes de Karine. Era uma menina cor de giz, meio sem graça, meio doce. Tinha canela fina e cabelo curto. Parece que a estou vendo. Lá está, em 1980, escondida na garagem do edifício em que morei em Porto Alegre. Ainda brinca, sem saber que a olho daqui da cidade dos doces três décadas depois. Pernas leves, pulando amarelinha. Saia comprida, esvoaçante e blusão azul arremangado quase aos cotovelos. Da primeira vez que a vi, senti algo para o qual não tinha nome.

Foi algo à primeira palavra. Falou comigo e seguiu falando, falando tal como me conhecesse há dias. Quando criança não se pensa o tempo em meses e anos, mas só em dias. Como se na folhinha houvesse sempre aqueles mesmos números grandes. Então, mostrou-me algumas figurinhas querendo fazer trocas. Sim, eu também tinha muitas repetidas, mas não daquelas dela, que se chamavam “Amar é...”. Os meus álbuns eram de jogador de futebol e de super-heróis. Aceitei umas trocas. Só pra agradar. É de novinho que se aprende os galanteios. Ela perguntou junto com a resposta se eu morava ali, apontando a porta do zelador. Acho que nem viu minha cabeça balançando que sim, meio sem graça. Não tenho ao certo quanto tempo moramos lá. Uns dois anos, eu acho. Ah, mas brincávamos muito. Eu na "bici", lá e cá. Fazia o “8”, cortava o céu dela. Ainda ouço como contava seus saltos sem queimar a linha. Sua voz de menina gritando números ainda ecoa na minha cabeça como se fosse hoje.

Quando adultos passamos a contar os anos em voz baixa. A malha dos boxes baldios pintada no chão da garagem formava as estradas de nossa cidade de mentirinha. De um carro aqui e outro ali, fazíamos casas, esconderijos, paredes. E tinha tudo: padaria, farmácia, ponto de ônibus. No ar, um cheiro de escapamento. Atrás do Chevete verde metálico do pai dela, era o ferrolho. Militar aposentado, ele. Outros carros de outros pais também estavam lá. O meu pai não tinha carro. O nosso apartamento ficava ali no garajão, de modo que eu sempre sabia quando ela descia pra brincar. E lá ia eu. Todo bobo, todo exibido pra brincarmos de Cyborg e Mulher Biônica, de Superman e Lois Lane, de Homem Aranha e Mulher Maravilha.

Bons tempos... bons tempos. Eu gostava dela sem saber o que era gostar. E depois já gostava gostando, só não deu pra saber como chamar aquele sentimento. Amar é... Percebo agora o modo como alteramos nossas memórias com base nos conceitos que associamos ao que não tinha nome na infância. E adultos que agora somos, sem receita na mão, acrescentamos rótulos em tudo, lemos as bulas e tratamos os efeitos colaterais no divã. A vez que lhe beijei o magrinho do rosto, tenho quase certeza que pensei em algo doce e após pagar a prenda ela me disse: agora eu é que me escondo!

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