segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O poder da literatura

POR JOSÉ CASTELLO


 Em um século dominado pelo virtual e pelo instantâneo, que poder resta à
literatura? Ao contrário das imagens, que nos jogam para a fora e para as superfícies, a
literatura nos joga para dentro. Ao contrário da realidade virtual, que é compartilhada e
se baseia na interação, a literatura é um ato solitário, nos nos aprisiona na introspecção.
Ao contrário do mundo instantâneo em que vivemos, dominado pelo "tempo real" e pela
rapidez, a literatura é lenta, é indiferente às pressões do tempo, ignora o imediato e as
circunstâncias.

          Vivemos em um mundo dominado pelas respostas enfáticas e poderosas, enquanto a literatura se limite a gaguejar perguntas frágeis e vagas. A literatura, portanto, parece
caminhar na contramão do contemporâneo. Enquanto o mundo se expande, se reproduz e acelera, a literatura se contrai, pendindo que paremos para um mergulho "sem resultados" em nosso próprio interior. Sim: a literatura - no sentido prático - é inútil. Mas ela apenas parece inútil.

          A literatura não serve para nada _ é o que se pensa. A indústria editorial tende a
reduzi-la a um entretenimento para a beira de piscinas e as salas de espera dos aeroportos. De outro lado, a universidade _ em uma direção oposta, mas igualmente improdutiva _ transforma a literatura em uma "especialidade", destinada apenas ao gozo dos pesquisadores e dos doutores. Vou dizer com todas as letras: são duas formas de matá-la. A primeira, por banalização. A segunda, por um esfriamento que a asfixia. Nos dois casos, a literatura perde sua potência. Tanto quando é vista como "distração", quanto quando é vista como "objeto de estudos", a literatura perde o principal: seu poder de interrogar, interferir e desestabilizar a existência.

          Contudo, desde os gregos, a literatura conserva um poder que não é de mais ninguém. Ela lança o sujeito de volta para dentro de si e o leva a encarar o horror, as crueldades, a imensa instabilidade e o igualmente imenso vazio que carregamos em nosso espírito. Somos seres "normais", como nos orgulhamos de dizer. Cultivamos nossos hábitos, manias e padrões. Emprestamos um grande valor à repetição e ao Mesmo. Acreditamos que somos donos de nós mesmos!

         Mas leia Dostoievski, leia Kafka, leia Pessoa, leia Clarice _ e você verá que rombo
se abre em seu espírito. Verá o quanto tudo isso é mentiroso. Vivemos imersos em um grande mar que chamamos de realidade, mas que _ a literatura desmascara isso _ não passa de ilusão. A "realidade " é apenas um pacto que fazmos entre nós para suportar o "real". A realidade é norma, é contrato, é repétição, ela é o conhecido e o previsível. O real, ao contrário, é instabiliade, surpresa, desassossego. O real é o estranho.

         É nas frestas do real, como uma erva daninha, que a literatura nasce. A literatura
não é um divertimento; tampouco é um saber especializado. Ela é um instrumento, precário e sutil, de interrogar a vida. Desloca nossas certezas, transformando-as em incertezas. Em vez de nos oferecer respostas, nos faz novas perguntas _ desagradáveis e perturbadoras. Leia "Crime e castigo", "O castelo", o "Livro do desassossego", ou "A paixão segundo GH". Se você ler para valer, se neles mergulhar como quem se lança em um abismo, e a literatura é um abismo, sairá da leitura transformado e atordoado, sairá um outro homem, ainda que no corpo do mesmo homem.

         A literatura é, antes de tudo, uma máquina de transformação. Se você não deseja se modificar; se não pretende correr riscos; se teme as perguntas que não comportam respostas _ então, eu aconselho, afaste-se da literatura. A literatura é, sim, perigosa, porque tem mo poder de nos desestabilizar e desassossegar. Se você aprecia sua vida banal e rotineira, fuja! Ao contrário, se você sente um grande incômodo com o mundo, se você se incomoda com o tédio das imagens e da repetição, se você deseja se modificar e modificar o pequeno mundo que o cerca, então leia.

        A literatura não tem o poder dos mísseis, dos exércitos e das grandes redes de
informação. Seu poder é limitado: é subjetivo. Ao lançá-lo para dentro, e não para fora,
ela se infiltra, como um veneno, nas pequenas frestas de seu espírito. Mas, nele instalada pelo ato da leitura, que escândalos, que estragos, mas também que descobertas e que
surpresas ela pode deflagrar!

        Não é preciso ser um especialista para ler uma ficção. Não é preciso ostentar
títulos, apresentar currículos, ou credenciais. A literatura é para todos. Dizendo melhor:
é para os corajosos ou, pelo menos, para aqueles que ainda valorizam a coragem. Se você deseja sair de si e experimentar novas possibilidades do existir, então leia. Se deseja correr riscos e perder-se um pouco no instável e no precário, leia. Se você acha a vida insuficiente e deseja o inesperado, leia. Este é o pequeno, mas também precioso, poder da literatura. 
         * Este texto é o rascunho que preparei para minha fala na mesa "O poder da literatura", realizada, no mês de abril passado, na Bienal do Livro do Amazonas, em Manaus. Mesa que tive a alegria de dividir com a escritora Carola Saavedra, sob a mediação sempre hábil de Rogéro Pereira.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Amadurecer.

Você envelhece e começa pensar em caminhos para não endurecer de vez o coração. Medo de ser só mais uma amarga num mundo de des-sabores... Reflete sobre a diferença entre amadurecer e endurecer a alma. Busca arte, literatura e um pouco de compaixão no ser humano. Como é difícil encontrar isso em qualquer um, em qualquer lugar, digitei no google "não endurecer a alma" pensando que seria direcionada para mensagens positivas ou poesias desconhecidas... mas as opções foram "como endurecer os glúteos" "como não endurecer o camarão"

terça-feira, 12 de maio de 2015

FELIZ ANO NOVENTA, RUBEM FONSECA POR

Feliz ano noventa, Rubem Fonseca
POR 
Cheio de disposição, autor lança nova coletânea de contos que atualiza seu universo e ganhará homenagem de amigos

RIO - Rubem Fonseca ainda não sabe, mas quando completar 90 anos, nesta segunda-feira, receberá em mãos um presente especial: um livro-homenagem de 25 exemplares, organizado por uma amiga, a chef e jornalista mexicana Lourdes Hernandez. Na pequena publicação artesanal de 45 páginas, que circulará apenas entre familiares e pessoas próximas, o jornalista Zuenir Ventura, o romancista Marçal Aquino, o tradutor mexicano Romeo Tello, o escritor salvadorenho Horacio Castellanos Moya e a editora e filha Bia Corrêa do Lago relembram histórias curiosas do autor mineiro e falam sobre a influência da obra dele em suas vidas e trajetórias. Antes que nos acusem de estragar a surpresa, um alívio: o aniversariante não lerá esta reportagem hoje, garante a família. Ele passa o fim de semana na região serrana, onde um de seus filhos tem uma casa, e só voltará a folhear jornais depois de amanhã.
— Queríamos que fosse divertido e informal — diz Lourdes. — Tão informal que me enganei e escrevi na capa “Feliz aniversário de 80 anos”, em vez de 90. Corrigi à mão mesmo, exemplar por exemplar.


A homenagem é uma maneira original de escapar das sisudas solenidades oficiais. A própria foto de capa dá o tom: tirada pelo marido de Lourdes, o artista plastico e diplomata Felipe Ehrenberg, mostra um sorridente e jovial Rubem Fonseca dançando em um restaurante no México, com mariachis ao fundo. Hostil a festividades, o autor não quer ser colocado em um museu, se recusa a viver na poeira do passado. Chega aos 90 “com corpinho de 80” — garante a filha Bia —, disposição de garoto e livro novo — a coletânea “Histórias curtas” (leia a crítica de José Castello na página 5), recém-chegada às livrarias. Fonsequianos ao extremo, os 38 contos inéditos provam que ainda falta muito para pôr um ponto final em sua obra. O ato falho de Lourdes, afinal, foi totalmente justificado.
— Ele não fica pensando em idade e é avesso a celebrações e multidões — conta Bia, irmã de José Henrique Fonseca, cineasta, e Zeca Fonseca, fotógrafo. — Não supervaloriza o fato de estar chegando aos 90, mas tem certeza que vai chegar a 100, escrevendo sempre. Acho que ele nunca escreveu tanto quanto agora, e com uma escrita cada vez mais moderna. É uma disposição, uma vibração com as coisas... Às vezes me espanto como alguém pode chegar nessa idade tão bem de raciocínio.
PAIXÃO PELA POESIA
Editora dos últimos três livros do autor (incluindo o “Histórias curtas”), Maria Cristina Jeronimo se surpreende a cada dia com a energia e o comprometimento de Fonseca.
— Ele quer saber tudo que está acontecendo — detalha a editora. — Acompanha o processo de edição em todas as etapas, revisa todas as provas, não há uma só emenda que não passa por ele. Aos 90 anos, continua aí, totalmente produtivo, construindo e conduzindo a obra dele.


O tempo não parece ter afetado o escritor. Além do físico conservado, ele se mantém, segundo Bia, conectado ao mundo atual. “Cabeça boa”, “músculos firmes”, o noventão faz esteira, malha na academia, vê séries e lê sem parar. Consome o que passa à sua frente: clássicos e contemporâneos, jornais nacionais e estrangeiros, filmes na TV e em DVD.
Paixão permanente, a poesia ocupa um lugar cada vez mais importante em seu dia a dia, tanto os velhos favoritos (Drummond, Eliot, Guerra Junqueiro) quanto os novos lançamentos (ele teria se encantado com os últimos livros de Antonio Cícero e Eucanãa Ferraz). Ultimamente, tem se dedicado com afinco a escrever versos (como o poema inédito publicado no alto desta página). A coletânea “Amálgama”, lançada em 2012, já trazia poemas infiltrados entre os contos. Bia não descarta, inclusive, um futuro livro de poesia.
— Não me surpreenderia nem um pouco se o Zé Rubem tivesse material para um livro de poemas, talvez até mais de um — diz Marçal Aquino. — A poesia sempre esteve presente em sua prosa, seja na citação de versos de poetas, seja na busca de outras formas narrativas.
Velhos hábitos não saem da rotina do escritor. Fonseca é um “supervisor” incansável das árvores leblonenses, sempre cobrando para que sejam tratadas com carinho pela prefeitura e pelos moradores. Se precisar, interpela um funcionário que tenha podado mal uma árvore. Frequentador da Praça Antero de Quental, adotou diversos ipês do espaço, que ele batiza com nomes como “Cassiana” e “Beatriz”.
O forte vínculo com a natureza se estende aos animais. Outro dia, uma coruja entrou na janela do apartamento onde mora, no décimo segundo andar . Ficou tão feliz que “parecia ter ganho na loteria”, lembra a filha. Infelizmente, ninguém sabia como alimentar o animal, que acabou sendo entregue aos cuidados de um zoológico.
“Seu Rubem”, como é conhecido em seu bairro, continua cultivando a fama de recluso, pelo menos no Brasil. Mora sozinho desde 1997, quando sua esposa, Théa Maud Komel, morreu de uma doença degenerativa. Não fala com jornalistas há pelo menos 50 anos. Embora tenha aparecido recentemente em eventos no exterior, recusou convites para participar da Flip e da gigante delegação de escritores brasileiros que aterrissou na Feira de Frankfurt de 2013. A presença limitada na mídia, explica a filha, lhe permite circular mais à vontade pelas ruas do Leblon.
— Meu pai diz que a vantagem de não ser uma pessoa conhecida é poder olhar as coisas sem ser incomodado. Para ele, o escritor tem que observar, não ser observado.
Nas últimas décadas, Fonseca se consolidou como um feroz observador da violência urbana e da miséria humana. Sua estreia, a coletânea de contos “Os prisioneiros” (1963), foi saudada como “revelação do ano” pelo “Jornal do Brasil”, inaugurando o que o crítico Alfredo Bosi chamaria de corrente “brutalista”. Meio século depois, “Histórias curtas” é a quintessência desse estilo: o autor dialoga intimamente com os seus livros anteriores, atualizando sua linguagem e seus temas.

— É uma síntese de todos os livros dele — avalia a Maria Cristina. — Como o título indica, são histórias compactas, velozes, que formam uma espécie de microcélula de sua obra. O movimento de extrema concisão ressalta ainda mais algumas das questões que ele sempre tratou, como a loucura e a decadência humana.
Fonseca começou a trabalhar o livro no final do ano passado, a partir de um corpus inicial de 30 contos. A cada semana, enviava à editora uma média de duas novas histórias, chegando a um total de 70 textos. Depois de um rigoroso processo de seleção, sobrou apenas a “papa fina”, ou seja, as 38 narrativas que compõem a coletânea.
— Alguns contos eram muito longos e acabavam quebrando a unidade do livro. É um processo difícil, muita coisa boa acabou ficando de fora — conta a editora, aproveitando para revelar o próximo projeto do autor: uma adaptação em quadrinhos de seu último romance, “O seminarista” (2009). Com previsão de lançamento para 2016, terá ilustração de Rodrigo Rosa e roteiro do próprio Fonseca. Será sua primeira incursão no gênero.
A “surpresa mexicana” de Lourdes Hernandez mostra que a influência do autor vai além das nossas fronteiras. Em suas contribuições no livro-homenagem, Horacio Moya e Romeo Tello lembram do impacto causado por “O cobrador” em sua geração. “Cada vez que estou de saco cheio de ler as preguiçosidades que agora tanto se publicam, volto a ‘O cobrador’, ao ressentimento profundo que só descobri dentro de mim mesmo ao ler esse conto. Afinal, o que é a literatura que escrevemos senão um ajuste de contas, o labor despiedado de um cobrador?”, escreve o salvadorenho, autor da novela “Asco”, publicada no Brasil em 2013 pela coleção Otra Língua, da Rocco.
Já Tello, primeiro tradutor de Fonseca no México, lembra do mistério que havia em torno de Rubem Fonseca em seu país nos anos 1980. “Na época, só conhecia uma foto de Rubem, a que aparecia na contracapa de ‘O cobrador’, e os únicos dados que me permitiam ter luz sobre essa personalidade vazia de biografia eram os que estavam impressos nas orelhas dos livros traduzidos, nada mais”.
'ENCANTO FEMININO', POEMA INÉDITO DE RUBEM FONSECA
"Continuo sensível ao encanto feminino.
Continuo gostando de sapos.
Mas dentro de casa não tenho
Nem mulher nem sapo.
Tenho livros. Tenho garfos e facas.
Tenho sapatos. O sapato que eu uso foi comprado
Há mais de 15, quinze, repito quinze, anos.
Isto é uma poesia, fiquem sabendo.
Um sujeito disse que poesia é
Aquilo que se perde na tradução
Eu digo que poesia é o que cada um acha que é poesia.
Achar as mulheres lindas é poesia.
Tenho dito."


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